Justiça

Eleitores 70+ disparam 16%: por que 17 milhões votam sem obrigação

Idoso votando em urna eletrônica no Brasil, eleitor 70+ exerce voto facultativo
Eleitorado 70+ cresce 16% e chega a 17 milhões de votantes facultativos em 2026.

O eleitorado acima de 70 anos saltou para quase 17 milhões de pessoas aptas a votar em 2026, um avanço de 15,75% frente a 2022. O dado chama atenção justamente porque, nessa faixa etária, o comparecimento às urnas é facultativo. O que move milhões a exercer um direito que a lei já não lhes cobra?

A resposta está mudando o mapa eleitoral brasileiro. Mais de um em cada dez eleitores do país tem hoje 70 anos ou mais — um bloco com peso suficiente para definir disputas acirradas em municípios e estados.

O voto como ato de autonomia, não obrigação

No Brasil, a obrigatoriedade vale dos 18 aos 70 anos. Passado esse limite, a Justiça Eleitoral remove as sanções, mas não o estímulo. O resultado: uma parcela crescente da população idosa trata o voto como escolha consciente, não como dever burocrático.

Para o professor aposentado João Batista da Silva, 88 anos, a motivação é clara: “A democracia é baseada no voto, então você está lutando por isso. Liberdade de expressão, liberdade de consciência, de voto.”

Experiência acumulada vira ativo político

Acácio Leite, assessor de planejamento do TRE-Pernambuco, destaca um diferencial desse eleitorado: décadas de vivência prática com gestão pública. “São eleitores que já têm algumas décadas muito bem vividas e certamente têm uma visão diferenciada do que é escolher um gestor que vai direcionar os próximos anos na educação, na segurança, no transporte.”

Essa bagagem histórica funciona como filtro. Quem viu ciclos econômicos, planos de governo e promessas de campanha se repetirem tende a votar com base em critérios mais concretos — e menos suscetíveis a discursos de ocasião.

Saúde, pertencimento e propósito

O impacto extrapola a política. O médico geriatra Alexandre de Mottos aponta benefícios mensuráveis: “Continuar votando não só é exercer a cidadania do ponto de vista sociológico, mas para a saúde é fundamental, porque significa autonomia, vínculos sociais e pertencimento social e propósito.”

  • Autonomia: ir à urna exige mobilidade, planejamento, decisão
  • Vínculos: o ato eleitoral conecta o idoso à comunidade
  • Propósito: a sensação de influenciar o futuro das novas gerações

A aposentada Juracy D’Albuquerque Chaves, 98 anos, resume: “Eu estou pensando não em mim, mas numa vida melhor, no futuro para meus netos, para meus bisnetos. Eu renovei o meu título justamente para não deixar de votar.”

O que observar nas próximas eleições

O crescimento de 15,75% em quatro anos supera a expansão média do eleitorado geral. Se a tendência se mantiver, a fatia dos 70+ pode ultrapassar 12% dos votantes já em 2030. Para campanhas e analistas, o recado é direto: ignorar esse segmento é erro de cálculo. Eles votam, comparam, cobram — e, diferentemente de outros grupos, não precisam ser convencidos a comparecer. Comparecem por convicção.

Daqui pra frente, vale monitorar: como os partidos vão adaptar propostas para um eleitorado que envelhece, vota mais e exige respostas concretas em saúde, previdência e mobilidade urbana. O voto facultativo, paradoxalmente, pode se tornar o mais fiel do calendário eleitoral.