O UBS definiu duas classes de ativos como prioridade máxima para quem quer atravessar o período eleitoral sem sustos: títulos atrelados à inflação e diversificação internacional. Todo o resto — de multimercados a ações locais — recebeu recomendação neutra ou negativa.
A decisão não é por acaso. Com a dívida bruta em 82,5% do PIB e despesas federais crescendo acima da receita há sete meses, o banco suíço vê o risco fiscal como o verdadeiro motor dos prêmios de risco no Brasil.
Por que os indexados à inflação viraram peça central
Os juros reais pagos hoje pelos títulos do Tesouro (NTN-Bs) seguem bem acima da média histórica. Isso entrega duas coisas ao mesmo tempo: rentabilidade atrativa e uma barreira natural caso as expectativas de inflação desancorem por conta da incerteza fiscal.
Na prática, o investidor ganha se a economia andar bem e também se o cenário piorar. Poucos ativos oferecem esse colchão duplo no momento atual.
A aposta no exterior: mais que diversificação, sobrevivência
Para o UBS, colocar dinheiro lá fora deixou de ser opção tática e virou necessidade estratégica. A combinação de eleição acirrada, prêmios de risco domésticos elevados e volatilidade cambial justifica exposição relevante a dois pilares:
- Ações globais: o banco projeta alta das bolsas internacionais nos próximos 6 a 12 meses.
- Renda fixa internacional investment grade: papéis de alta qualidade com prazos intermediários.
Entre commodities, o cobre lidera a preferência. A prata fica em segundo plano.
O que fica no meio do caminho: neutro não significa irrelevante
Prefixados, pós-fixados, fundos imobiliários e ações brasileiras recebem avaliação neutra. Não é para vender, mas também não é para concentrar.
Nos prefixados, as taxas atuais são tentadoras e a desaceleração econômica poderia beneficiá-los. O problema é o teto: o Copom já sinalizou cautela, e a inflação resistente pode manter a Selic terminal mais alta do que o mercado precifica hoje.
Nos pós-fixados, a remuneração segue forte (CDI a 13,75%), mas a vantagem em relação a prazos mais longos encolhe a cada corte de juros. Continuam úteis para gestão de liquidez de curto prazo.
O elefante na sala: a trajetória da dívida
De janeiro a julho, o governo gastou mais do que arrecadou — mesmo com receitas recordes. O UBS é direto: a credibilidade fiscal, não o ciclo econômico, ditará a direção dos ativos brasileiros daqui para frente.
Qualquer melhora crível na dinâmica da dívida destrava ganhos nos prefixados e na bolsa. Uma piora anula o efeito positivo da queda dos juros.
O fator Bolsa Família e o calendário eleitoral
O reajuste de 15% no benefício, válido a partir de outubro, tem custo estimado em R$ 22 bilhões em 2027. O timing — entre o primeiro e um eventual segundo turno — coloca a medida sob radar da Justiça Eleitoral, embora o governo a trate como recomposição inflacionária.
Para o banco, eleição e fiscal seguirão injetando volatilidade no real e na curva de juros. O cenário-base é de depreciação gradual da moeda, sem rompimento desordenado.
Bolsa brasileira: barata, mas com freio de mão puxado
As ações nacionais negociam a múltiplos descontados frente à história e a pares emergentes. Ainda assim, três forças impedem uma valorização mais forte: juros reais elevados, incerteza fiscal e ruído eleitoral.
Setores expostos a commodities aparecem em posição relativamente melhor, beneficiados pela demanda externa e pela taxa de câmbio.
O que observar daqui para frente
Três variáveis devem ditar o ritmo nos próximos meses: a comunicação do Copom após cada reunião, a execução do arcabouço fiscal e as pesquisas eleitorais quinzenais. Qualquer sinal de afrouxamento no compromisso com a dívida ou de acirramento radical na disputa presidencial tende a ampliar o prêmio de risco — e a reforçar a tese de que, hoje, a melhor defesa é uma boa dose de indexados à inflação e exposição lá fora.
