Economia

Crédito no Brasil: BC aperta, governo acelera e a conta chega para quem?

Gráfico mostra divergência entre crédito livre em queda e crédito direcionado em alta no Brasil
Crédito livre desacelera com juros altos enquanto programas federais impulsionam crédito direcionado.

A ata do Copom confirmou o que o mercado já sentia: o crédito bancário livre perdeu fôlego. Mas há um contrapeso silencioso que poucos monitoram de perto — o crédito direcionado, turbinado por programas federais, segue em expansão acelerada.

Essa dinâmica cria um cenário esquizofrênico: de um lado, juros altos para conter a inflação; do outro, garantias públicas que irrigam o crédito a empresas que, sem esse lastro, ficariam sem financiamento.

O programa “emergencial” que virou permanente

Criado em junho de 2020 para socorrer pequenas e médias empresas na pandemia, o PEAC (Programa Emergencial de Acesso a Crédito) deveria ser temporário. Medidas provisórias e leis posteriores estenderam sua vigência por tempo indeterminado.

Hoje, atende empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões. O mecanismo é simples: o banco empresta com capital próprio, mas o FGI (Fundo Garantidor para Investimentos), gerido pelo BNDES, cobre uma fatia do risco de calote.

Resultado: a instituição financeira reduz sua exposição e aprova operações que, em condições normais, seriam recusadas.

Números que não mentem

Dados do Banco Central mostram que o crédito direcionado a pessoas jurídicas cresceu 18,5% em 12 meses até o início de 2026. A expansão não arrefeceu — pelo contrário, mantém trajetória ascendente mesmo com a Selic em patamar restritivo.

  • Público-alvo: empresas com receita até R$ 300 milhões/ano
  • Garantidor: FGI (BNDES)
  • Crescimento 12 meses: 18,5% (dado BC, início de 2026)
  • Inadimplência: maior nível da série histórica em jun/2026

O sinal de alerta nos balanços

O Relatório de Estabilidade Financeira de junho de 2026 trouxe um dado incômodo: a inadimplência na rubrica “outros créditos direcionados” — onde o PEAC tem peso relevante — atingiu o pico da série histórica.

A leitura direta: sem a cobertura do fundo garantidor, parte expressiva desses tomadores não teria acesso ao crédito. O risco migrou do balanço dos bancos para o balanço público.

Duas mãos, direções opostas

Enquanto o BC eleva a Selic para drenar liquidez e conter pressões de demanda, o governo expande linhas subsidiadas que injetam poder de compra na ponta. A teoria econômica ensina que ambos os canais afetam inflação e produto — não apenas o PIB, como às vezes se presume no debate público.

Essa assimetria reduz a eficácia da política monetária. O remédio amargo dos juros altos é parcialmente neutralizado pela expansão fiscal disfarçada de crédito direcionado.

O que observar daqui para frente

Com o calendário eleitoral no radar, ajustes estruturais no PEAC ou no arcabouço dos fundos garantidores tendem a ficar para depois de novembro. Até lá, três variáveis merecem monitoramento contínuo:

  • Evolução da inadimplência no crédito direcionado vs. livre
  • Participação do FGI nas novas concessões a PJ
  • Sinais do BC sobre transmissão da política monetária

Para o empresário e o investidor, a lição prática é clara: o custo de funding livre segue pressionado, mas janelas de crédito subsidiado persistem — com critérios de acesso e risco próprios. Mapear quais linhas fazem sentido para o seu fluxo de caixa, sem ignorar o ciclo de juros, deixa de ser opção e vira necessidade estratégica.