A Do Coado ao Espresso, na Pituba, acaba de ser reconhecida como a terceira melhor cafeteria do Brasil e a 14ª da América do Sul. O feito coloca Salvador no mapa global do café de especialidade pela primeira vez.
O anúncio saiu na madrugada desta terça-feira e pegou até os donos de surpresa. O que parecia um negócio de bairro virou referência internacional da noite para o dia.
Como uma casa discreta chegou ao pódio nacional
A cafeteria funciona há quatro anos em um imóvel modesto na rua Direta da Pituba. Sem fachada chamativa, sem marketing agressivo. O segredo, segundo clientes e jurados, está na consistência: grãos comprados direto de produtores baianos, torra própria e baristas treinados para extrair o melhor de cada origem.
O ranking é organizado pela Coffee Review Latin America, que avalia mais de 400 estabelecimentos por ano. Critérios incluem qualidade da xícara, serviço, ambiente, sustentabilidade e inovação no menu. A Do Coado ao Espresso pontuou 94 de 100 possíveis.
Para efeito de comparação: as duas primeiras colocadas são de São Paulo e do Rio, capitais com orçamentos dez vezes maiores. A baiana gastou menos de R$ 180 mil na estrutura atual.
O efeito imediato no fluxo de clientes
Desde a divulgação, a fila dobra a esquina antes das 7h. O ticket médio subiu de R$ 22 para R$ 38 — clientes pedem degustações completas em vez de apenas um coado. O estoque de grãos raros, que durava três semanas, acabou em dois dias.
Proprietários de outras cafeterias da cidade relatam aumento de 30% na procura por cafés de especialidade. “As pessoas querem entender o que tem de tão especial naquela xícara”, diz um dono de casa concorrente no Rio Vermelho.
- Faturamento projetado para outubro: +220% sobre setembro
- Pedidos de franquia recebidos: 17 em 48 horas
- Convites para festivais internacionais: 5 confirmados para 2027
Por que isso muda o jogo para o Nordeste
Historicamente, o café de especialidade no Brasil concentra-se no eixo Sul-Sudeste. Minas Gerais produz, São Paulo consome e exporta. O Nordeste aparecia apenas como mercado consumidor de grãos já torrados.
Agora, uma casa soteropolitana prova que torra de precisão e curadoria de origem podem acontecer aqui — com grãos do Planalto da Conquista, da Chapada Diamantina e do Sul da Bahia. Três terroirs distintos a menos de 600 km da capital.
O reconhecimento atrai olhares de investidores para a cadeia produtiva baiana. Dois fundos de venture capital já sondaram a cafeteria para estruturar uma marca de grãos torrados com distribuição nacional.
O que observar nos próximos meses
A expansão é o tema inevitável. Os sócios negam franquia por enquanto — “a qualidade não escala sozinha” —, mas estudam uma segunda unidade no Comércio, focada em atacado e treinamento. Também negociam linha própria de equipamentos de extração com um fabricante paulista.
Para o empresário que acompanha o setor, o sinal é claro: o café de especialidade deixou de ser nicho de capitais ricas. A próxima fronteira é logística — quem conseguir levar grão fresco do produtor ao consumidor final em menos de 15 dias vai ditar as regras. A Do Coado ao Espresso já faz isso em sete.
