Internacional

Lula na ONU: o discurso que reposiciona o Brasil no tabuleiro global

Lula discursa na tribuna da Assembleia Geral da ONU com bandeira do Brasil ao fundo
Presidente Lula pronuncia discurso na 78ª Assembleia Geral da ONU em Nova York

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu à tribuna da Assembleia Geral da ONU e fez mais do que defender interesses nacionais: colocou o Brasil no centro de uma articulação que reúne nações emergentes em torno de uma pauta comum. A fala não mirou apenas a plateia diplomática; mirou a reconstrução de uma influência que o país perdeu nos últimos anos.

O tom não foi de campanha eleitoral. Foi de estadista que calcula vetores de poder. Lula conectou fome, desigualdade, mudança climática e reforma da governança global em uma única narrativa: a de que o Sul Global não aceita mais ser coadjuvante.

O que o discurso sinaliza para investidores e empresários

Para quem lê o noticiário internacional com óculos de negócios, a mensagem tem tradução direta. O Brasil busca liderar um bloco que, somado, representa mais de 40% do PIB mundial medido em paridade de poder de compra. Isso abre portas para:

  • Novos acordos comerciais fora do eixo tradicional Ocidente-Oriente
  • Financiamento verde para infraestrutura e transição energética
  • Assento permanente em conselhos de governança climática e financeira

O detalhe prático: o presidente citou nominalmente a reforma do Conselho de Segurança da ONU e a ampliação do poder de voto dos países em desenvolvimento no FMI e no Banco Mundial. São mudanças que, se avançarem, alteram o custo de capital para projetos no Brasil.

O eixo climático como moeda de troca

Lula chegou a Nova York com um número na manga: a redução de 42% no desmatamento da Amazônia entre janeiro e julho de 2023, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O dado, confirmado pelo INPE, funciona como ativo político. Permite ao Brasil cobrar o cumprimento da promessa dos países ricos — US$ 100 bilhões anuais para clima — que segue inadimplente desde 2020.

Mas o discurso foi além da cobrança. Propôs uma “Conferência do Clima do Sul Global” antes da COP30, que será em Belém, 2025. A ideia é chegar à conferência com posições unificadas de Brasil, Índia, Indonésia, África do Sul e outros. Quem acompanha o mercado de carbono sabe: alinhamento prévio entre grandes florestas tropicais muda a precificação de créditos e a regulação de Artigo 6.

A reforma tributária internacional no radar

Outro ponto que passou despercebido na cobertura geral, mas interessa a CFOs e tributaristas: Lula endossou a taxação mínima global de 15% para multinacionais e defendeu ir além, com tributação progressiva sobre super-ricos. A proposta tem respaldo da OCDE, mas esbarra na resistência de paraísos fiscais e de economias que competem por investimento via incentivos.

Se o Brasil liderar esse debate no G20 — que preside em 2024 —, pode ditar o ritmo de implementação na América Latina. Empresas com estrutura cross-border já precisam modelar cenários.

O que observar daqui para frente

A ONU foi o palco. O G20 no Rio, em novembro de 2024, será o teste de execução. Três sinais valem monitorar nas próximas semanas: (1) adesão formal de Índia e Indonésia à conferência climática pré-COP30; (2) avanço da proposta de reforma do Conselho de Segurança na Assembleia Geral; (3) posicionamento do Ministério da Fazenda sobre tributação global na reunião de ministros de Finanças do G20 em outubro.

O discurso não resolve nada sozinho. Mas reposiciona o Brasil como articulador de uma agenda que, se prosperar, redesenha fluxos de capital, regras de comércio e governança climática na próxima década. Quem decide alocação de recursos no longo prazo faria bem em tratar a diplomacia brasileira como variável de modelo, não como ruído de fundo.