O Banco Travelex registrou uma diferença de US$ 4,1 bilhões entre compras e vendas de moeda estrangeira apenas em julho e agosto, segundo dados do Banco Central. O volume equivale a 63% de tudo o que a instituição movimentou no primeiro mês e coincide com a análise da venda do controle para o grupo norte-americano StoneX. A discrepância levanta dúvidas sobre a origem real desses dólares e o destino final das operações.
O salto nos números que chamou a atenção do mercado
Em julho, o Travelex comprou US$ 3,21 bilhões e vendeu apenas US$ 727 milhões. A sobra de US$ 2,48 bilhões representou a maior assimetria entre entrada e saída de dólares de todo o sistema financeiro nacional naquele mês. Em agosto, o padrão se manteve: US$ 1,97 bilhão em compras contra US$ 367 milhões em vendas.
Para efeito de comparação, nos cinco primeiros meses de 2026 a diferença média mensal mal passava de US$ 16 milhões. Em janeiro, compras e vendas estiveram praticamente empatadas — US$ 881 milhões contra US$ 870 milhões.
Negócio principal não explica o volume atípico
O banco atua prioritariamente em remessas internacionais, importações e turismo. Em julho, esse segmento movimentou US$ 404 milhões; em agosto, US$ 340 milhões. A demanda real de clientes, portanto, cobre menos de 15% dos dólares adquiridos no mercado interbancário no período.
Essa desconexão entre fluxo operacional e posição cambial bruta é o ponto central que intriga analistas e reguladores.
Três hipóteses para o descasamento cambial
- Operações com derivativos: posições protegidas por instrumentos de hedge que não aparecem como venda no ranking mensal do BC.
- Liquidação por canais alternativos: transações encerradas fora do sistema tradicional de câmbio, sem registro como venda de moeda.
- Ativos referenciados em dólar (stablecoins): compra de dólares no câmbio oficial para lastrear tokens, cuja entrega ao cliente não computa como venda de moeda estrangeira.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o terceiro cenário reproduziria exatamente o padrão observado: entrada forte de dólares, saída invisível nos rankings públicos.
O que o banco diz e o que não comenta
Em nota, o Travelex afirma que os volumes refletem operações regulares e que a leitura isolada dos dados brutos não representa sua posição cambial real, pois não contempla contrapartidas, liquidações e gestão de risco. A instituição garante cumprir a regulação e manter reportes às autoridades.
Questionado especificamente sobre eventual uso dos dólares em operações com stablecoins, o banco não confirmou nem negou, limitando-se a dizer que observa o arcabouço regulatório e mantém interlocução com o Banco Central.
Venda para StoneX adiciona camada de complexidade
A aquisição foi anunciada em 12 de agosto e já recebeu aval do Cade. O Banco Central ainda analisa a operação. O timing — justamente nos meses de maior assimetria cambial — faz com que o regulador olhe com lupa para a qualidade dos ativos e a estrutura de risco que será herdada pelo comprador.
Não há indício de irregularidade. A discrepância pode ser perfeitamente legal. Mas a opacidade sobre a destinação final dos recursos exige monitoramento contínuo.
O que observar daqui para frente
Três sinais merecem atenção nas próximas divulgações mensais do ranking de câmbio: (1) se o Travelex retoma o equilíbrio entre compras e vendas após a conclusão da venda; (2) se o Banco Central exigir detalhamento das contrapartidas não visíveis no ranking; (3) eventuais normas mais estritas para lastro de stablecoins por instituições financeiras. Para quem opera câmbio ou avalia risco de contraparte, a leitura atenta desses dados deixou de ser opcional.
