Cultura

Pizza com a mão e sem rodela de tomate: o segredo do top 70 mundial

Pizza napolitana autêntica da Bento Pizzeria no prato, bordas altas e ingredientes frescos
A pizza napolitana certificada AVPN que colocou a Bento Pizzeria no top 70 mundial.

A Bento Pizzeria, na Tijuca, entrou para o ranking das 100 melhores pizzarias do planeta em 2026, ocupando a 70ª posição e sendo a única representante carioca na lista. O reconhecimento do 50 Top Pizza coloca a casa de apenas três anos no mapa global, mas o verdadeiro diferencial está nas regras que o chef Pierluigi Russo impõe à mesa.

Certificada pela Associazione Verace Pizza Napoletana (AVPN) — a única no Rio com esse selo —, a Bento não negocia a tradição. O resultado aparece no movimento: a clientela triplicou e as redes sociais ganharam quase 5 mil seguidores após o anúncio do prêmio.

O manual de sobrevivência na mesa italiana

Esqueça garfo e faca. Para o chef Luigi, pizza “de respeito” se come com as mãos. A técnica exige dobrar a fatia ao meio, como um sanduíche, garantindo que o recheio não escape e que a mordida capture todas as camadas de uma só vez. Na Itália, talheres simplesmente não acompanham o prato.

Outra quebra de paradigma: a Margherita autêntica não leva rodelas de tomate cru. O costume é invenção brasileira. “Rodela descaracteriza a pizza, deixa feia e com menos sabor”, define Luigi. O padrão exige molho de tomate de alta qualidade e muçarela fior di latte.

A lista de “proibições” segue:

  • Nada de ketchup: “Só no McDonald’s”, sentencia o pizzaiolo.
  • Azeite só na preparação: Colocar depois de assado “vira gordura pura”.
  • Fim do “meio a meio”: Pizza é prato individual, tamanho único, sem fatias para compartilhar.
  • Orégano restrito: Só na Marinara. Nas demais, manjericão fresco.

A pizza que desafia a lógica (e não leva queijo)

O cardápio guarda uma relíquia histórica: a Marinara. Só molho de tomate, orégano e lâminas de alho. Criada há mais de 200 anos para marinheiros que precisavam de alimento durável em longas travessias — sem refrigeração para queijo —, ela custa R$ 49, a mais barata da casa, e foi a favorita na degustação técnica.

Mas o carro-chefe é a pizza “Bento”: molho, fior di latte, gorgonzola, calabresa artesanal e azeite picante. A casa gira em torno de 150 pizzas por dia nos dias úteis, número que salta nos fins de semana, totalizando 3.500 unidades por mês.

Engenharia por trás da massa

O selo AVPN não é decorativo. Exige protocolo rígido: fermentação longa em temperatura controlada (20°C a 22°C), massa batida 10 a 12 horas antes de ir ao forno. O equipamento, importado e certificado, atinge 400°C a 500°C, assando a napoletana autêntica em 60 a 90 segundos.

Mais de 70% dos insumos vêm da Itália. Na Margherita clássica, o índice sobe para 99% — só o manjericão é nacional. O investimento em matéria-prima e processo explica a consistência que rendeu, no ano passado, o 11º lugar no ranking latino-americano antes do salto para o top 70 global.

O que observar daqui para frente

O fenômeno Bento sinaliza um mercado maduro para autenticidade premium, mesmo fora dos eixos nobres tradicionais. A zona norte do Rio provou sustentar operação de nível mundial com ticket médio acessível. Para investidores e operadores, a lição fica clara: certificação rigorosa, identidade inegociável e controle de processo escalam mais rápido que marketing agressivo. O próximo passo natural é monitorar se a expansão física ou franquias manterão o padrão artesanal que valeu o certificado — ou se o crescimento diluirá o produto que conquistou o mundo.