O governo dos Estados Unidos pediu formalmente ao Palácio do Planalto para rever a venda dos ativos de níquel da Anglo American para a chinesa MMG. A solicitação chegou via escritório de representação comercial (USTR) em 9 de janeiro de 2026 e foi rejeitada na hora por Brasília.
O episódio expõe a disputa silenciosa por minerais críticos no governo Lula. O níquel não é apenas mais uma commodity — é peça-chave para baterias e aço inoxidável, e o Brasil senta sobre uma das maiores reservas do mundo.
O pedido que não passou da porta
Jamieson Greer, chefe do USTR, encaminhou a proposta sugerindo veto a aquisições de jazidas estratégicas por “economias não de mercado” — leia-se China. A linguagem diplomática esconde um objetivo claro: impedir que Pequim trave o fornecimento de insumos vitais para a transição energética ocidental.
Fontes do Itamaraty confirmam que a resposta brasileira foi taxativa: as regras valem para todos, independentemente da origem do capital. Não há tratamento diferenciado para investidores de Pequim, Ancara ou Londres.
Ativos, valores e o tabuleiro geopolítico
O negócio, anunciado em fevereiro de 2025, envolve US$ 500 milhões. O pacote inclui:
- Operações ativas: Barro Alto e Codemin (Niquelândia), em Goiás;
- Projetos futuros: Morro Sem Boné (Mato Grosso) e Jacaré (Pará).
A Anglo American também tinha sobre a mesa uma oferta da turca CoreX, aliada da Otan. A existência de um comprador “ocidental” não impediu a escolha pela MMG, sinal de que critérios comerciais prevaleceram sobre alinhamentos políticos.
Bruxelas e Brasília: duas frentes de pressão
Não foi só Washington que se mexeu. A Comissão Europeia abriu investigação antitruste em novembro de 2025. O temor: a produção brasileira seja redirecionada para a Ásia, encarecendo o aço inoxidável na Europa.
No front interno, a CoreX acionou o Cade alegando riscos concorrenciais. A Superintendência-Geral arquivou o processo preliminar, removendo um obstáculo regulatório doméstico — mas a investigação europeia segue aberta.
Por que o níquel virou moeda de poder
A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda por níquel para baterias pode multiplicar por 20 até 2040. Quem controla a mina, controla a cadeia. O Brasil detém a terceira maior reserva global, mas exporta muito concentrado e pouco produto refinado.
A venda para a MMG acelera a verticalização chinesa: da jazida à bateria, sem passar por transformadores ocidentais. Para investidores, o sinal é claro — ativos de metais de bateria no Brasil estão no radar das grandes potências.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o próximo capítulo: o desfecho da investigação da UE, a capacidade da MMG de aportar capital para desenvolver Morro Sem Boné e Jacaré, e a disposição do governo brasileiro em manter a isonomia regulatória sob pressão externa. Quem tem exposição a mineração ou cadeias de suprimento de energia limpa deve monitorar editais de licenciamento e movimentos de capital em Goiás e no Pará — é ali que o xadrez real se joga.
