Internacional

Canadá vira as costas para Trump e sela pacto estratégico com a União Europeia

Mark Carney aperta a mão de líder da UE em cúpula de Bruxelas, selando aliança estratégica Canadá-Europa
Primeiro-ministro canadense Mark Carney formaliza nova parceria estratégica com a União Europeia em Bruxelas.

O primeiro-ministro Mark Carney desafiou abertamente a retórica agressiva de Donald Trump ao anunciar, nesta quinta-feira (17), uma “nova aliança” com a União Europeia. O movimento sinaliza uma guinada histórica na política externa canadense: pela primeira vez em décadas, Ottawa aposta na diversificação como escudo contra a volatilidade americana.

A declaração ocorreu durante a cúpula UE-Canadá em Bruxelas, onde Carney classificou a parceria como “garantia de autonomia estratégica”. A frase ecoa como resposta direta às ameaças de anexação e tarifas de 25% que o presidente eleito dos EUA vem repetindo desde novembro.

O que muda na prática para empresas dos dois lados do Atlântico

O acordo vai além da retórica diplomática. Prevê a ampliação do CETA (Acordo Econômico e Comercial Global), já responsável por eliminar 98% das tarifas bilaterais desde 2017. Novos capítulos devem abranger:

  • Reconhecimento mútuo de padrões regulatórios em tecnologia verde e saúde
  • Facilitação de vistos para profissionais altamente qualificados
  • Coordenação de cadeias de suprimentos de minerais críticos — lítio, cobalto, terras raras

Para o setor privado, a mensagem é clara: reduzir dependência do mercado americano deixa de ser opção estratégica e vira imperativo de sobrevivência.

Números que explicam a urgência

Em 2023, 77% das exportações canadenses seguiram para os EUA — US$ 594 bilhões. A UE, segunda maior parceira, recebeu apenas 4,5%. O desequilíbrio expõe a economia a choques unilaterais: uma tarifa de 25% sobre aço e alumínio, cogitada por Trump, custaria ao PIB canadense cerca de 1,2 ponto percentual, segundo o Banco do Canadá.

Do lado europeu, o bloco busca alternativas ao gás russo e fornecedores confiáveis de matérias-primas para a transição energética. O Canadá possui a terceira maior reserva de urânio do mundo e projetos avançados de hidrogênio verde.

A reação de Washington e o risco de retaliação

Até o fechamento desta edição, a equipe de transição de Trump não comentou o anúncio. Analistas em Washington, porém, alertam: a Casa Branca pode interpretar o gesto como hostilidade e acelerar medidas protecionistas já no primeiro trimestre de 2025.

O Congresso americano, contudo, tende a frear movimentos bruscos. Setores como o automotivo (integrado entre Detroit e Ontario) e o agrícola (dependente de potássio canadense) possuem lobbies poderosos em estados-pêndulo.

O que observar nas próximas semanas

Três marcos definirão se a “nova aliança” resiste à pressão realpolitik:

  • Ratificação parlamentar — O CETA ampliado precisa de aprovação no Parlamento canadense e no Parlamento Europeu; eleições antecipadas em Ottawa podem travar o cronograma.
  • Implementação regulatória — Harmonização de normas técnicas costuma levar 18 a 24 meses; sem prazos vinculantes, o acordo vira carta de intenções.
  • Primeiro teste de crise — Se Trump impuser tarifas setoriais antes de março, a UE terá de decidir se retalia em bloco ou negocia bilateralmente.

Para gestores de risco e tomadores de decisão, o recado é prático: mapeie exposição ao mercado americano, teste cenários de tarifas de 10%, 25% e 50%, e acelere contratos com contrapartes europeias. A geopolítica mudou de velocidade — e quem não ajustar a rota paga a conta.