A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) analisa 13 notificações de perda súbita de visão em pacientes que utilizam medicamentos à base de agonistas do receptor GLP-1. A suspeita recai sobre uma condição rara e grave: a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIA-NA). Mas a correlação ainda é um mistério.
O cenário acende um alerta para milhares de usuários de Ozempic, Wegovy, Rybelsus e Mounjaro. A pergunta central permanece: o medicamento é o gatilho ou apenas um espectador em pacientes já vulneráveis?
O fato: 13 notificações, quatro princípios ativos
O levantamento reúne relatos envolvendo as quatro principais marcas disponíveis no mercado brasileiro. Todas pertencem à classe dos análogos de GLP-1, usadas inicialmente para diabetes tipo 2 e, mais recentemente, para tratamento da obesidade.
Até o momento, não há determinação de suspensão de uso nem alteração em bulas. A investigação está em fase inicial de farmacovigilância, etapa padrão para sinais de segurança emergentes.
O que é a NOIA-NA: o “infarto” do nervo óptico
Especialistas descrevem a condição como um infarto na porção anterior do nervo óptico. A redução brusca do fluxo sanguíneo priva as fibras nervosas de oxigênio, causando danos muitas vezes irreversíveis.
- Início súbito: A visão embaça ou some de uma hora para outra.
- Assimetria: Geralmente atinge um olho de cada vez.
- Ausência de dor: Diferencia-se de outras emergências oftalmológicas.
O prognóstico costuma ser de estabilização, mas a recuperação total da acuidade visual é infrequente.
Risco real ou coincidência estatística?
O oftalmologista Pedro Trés Vieira Gomes ressalta que, apesar do sinal de alerta, não existe nexo causal comprovado. A hipótese em estudo é se a ação do fármaco sobre a vascularização ocular poderia precipitar o evento em anatomias predispostas.
A endocrinologista Maria Amélia Julião reforça que a NOIA-NA costuma atingir perfis específicos: pacientes com “disco óptico lotado” (anatomia de risco), hipertensos, diabéticos e apneicos. Justamente o público-alvo dessas medicações.
O perigo da interrupção por conta própria
Especialistas são unânimes: não pare o tratamento sem orientação médica. A descontinuidade abrupta carrega riscos imediatos e documentados:
- Descontrole glicêmico severo em diabéticos;
- Rebote de peso rápido (efeito sanfona);
- Aumento de eventos cardiovasculares adversos.
O benefício metabólico comprovado, hoje, supera o risco teórico oftalmológico.
O que a ciência diz até agora
Um estudo de 2024 publicado no JAMA Ophthalmology encontrou associação estatística entre semaglutida e NOIA-NA. No entanto, pesquisas subsequentes apresentaram resultados divergentes. A limitação comum: são estudos observacionais. Eles mostram correlação, não causalidade.
Fabricantes como Novo Nordisk e Eli Lilly afirmam não ter identificado sinal de segurança em ensaios clínicos randomizados — o padrão-ouro científico — e recomendam a manutenção do acompanhamento médico regular.
O que observar daqui para frente
A Anvisa deve divulgar atualizações conforme a análise de causalidade avance. Para investidores e gestores de saúde, o ponto de atenção é duplo: monitorar se haverá impacto regulatório (restrições de uso ou alertas em bula) e avaliar a adesão ao tratamento frente ao ruído midiático.
Pacientes com fatores de risco ocular pré-existentes — como glaucoma de tensão normal ou histórico vascular — devem discutir com seus oftalmologistas a realização de exames de campo visual e tomografia de coerência óptica (OCT) de baseline. A vigilância ativa, hoje, é a melhor estratégia de mitigação.
