A economista e historiadora Deirdre McCloskey identifica um movimento silencioso que une extremos opostos do espectro político: a volta do Estado como protagonista das decisões privadas. O fenômeno não é ideológico — é estrutural e já afeta contratos, investimentos e liberdades contratuais.
De um lado, a esquerda tradicional defende mais regulação e tributação. Do outro, uma nova direita exige leis que policiem costumes, identidades e comportamentos. Ambos os lados, alerta McCloskey, abandonam o princípio liberal de que a maioria das escolhas deve permanecer no âmbito individual, familiar ou comunitário.
O princípio da avó que o mercado esqueceu
McCloskey resgata uma máxima do final do século XIX: “Faça o que quiser, mas não assuste os cavalos”. A regra resume o contrato social liberal: autonomia nas esferas do amor, ética, caridade, negócios e assuntos locais, com responsabilidade apenas nos grandes propósitos coletivos.
Esse princípio sustentou décadas de inovação descentralizada. Empresas nasceram em garagens, comunidades resolveram conflitos sem tribunais e mercados se autorregularam por reputação. O Estado atuava como árbitro de última instância, não como gestor do cotidiano.
Duas faces do mesmo impulso coercitivo
Nos anos 1980, Samuel Huntington teorizou o “choque de civilizações”, alimentando na direita o medo do colapso cultural. Em 1987, Allan Bloom diagnosticou o “declínio da mente americana” ao afastamento de normas conservadoras. Essas narrativas criaram a base intelectual para um ativismo estatal renovado.
Hoje, a administração Trump exemplifica essa virada: propostas de polícia secreta para imigração, leis sobre participação esportiva de pessoas trans, controle de currículos escolares. O Estado deixa de ser neutro para se tornar executor de uma moralidade majoritária.
Do lado progressista, o padrão se repete com sinais invertidos: cotas obrigatórias, regulação de discursos, tributação punitiva sobre setores específicos. A ferramenta é a mesma — a lei —; mudam apenas os alvos.
O custo oculto para quem empreende
Quando o Estado invade decisões que antes pertenciam a famílias, igrejas, associações de bairro ou conselhos de administração, três consequências diretas atingem o ambiente de negócios:
- Incerteza jurídica: regras mudam conforme o governo da vez, dificultando planejamento de longo prazo.
- Custo de conformidade: equipes jurídicas crescem para interpretar normas que não existiam cinco anos atrás.
- Erosão da confiança: contratos privados perdem força quando a lei pode reescrevê-los retroativamente.
McCloskey cita Gad Saad, autor de The Parasitic Mind e Suicidal Empathy, para ilustrar como o discurso anti-empatia serve de combustível para novas coerções. A tese: a compaixão política seria um “parasita mental” que descalibra prioridades morais. O perigo, segundo a autora, não está na tese em si — mas no convite implícito para que o Estado a imponha.
O que a história ensina sobre estatismo simétrico
O paralelo histórico é incômodo, mas necessário. Comunismos perseguiam empresários em nome da igualdade; nazismos perseguiam minorias em nome da pureza. Ambos usavam medos “infantis que se tornaram mortalmente sérios por coerções estatais”, nas palavras de McCloskey.
A diferença hoje é a velocidade. Redes sociais amplificam pânicos morais em dias. Legislativos reagem em semanas. Empresas que antes tinham anos para se adaptar a novas normas agora medem o prazo em trimestres.
O antídoto não está em Brasília
A saída proposta pela autora não passa por mais leis — passa por menos. Ela aponta três esferas que historicamente resolviam conflitos sem decretos:
- Comunidades de fé responsáveis — não como imposição, mas como referência ética voluntária.
- Famílias e redes de amizade — onde a reputação e o reciprocidade funcionam melhor que multas.
- Vizinhanças e associações locais — capazes de mediar ruídos, usos de solo e convivência sem burocracia.
São instituições que o estatismo, seja de esquerda ou direita, tende a enfraquecer ao centralizar a solução de problemas.
O que observar nos próximos ciclos
Para investidores e gestores, o sinal de alerta não é ideológico — é institucional. Acompanhe:
- Projetos de lei que criam crimes de opinião ou conduta privada sem vítima direta.
- Nomeações para agências reguladoras baseadas em lealdade política, não em competência técnica.
- Uso de decretos executivos para contornar o legislativo em temas sensíveis a mercados.
McCloskey encerra com um convite prático: “Vamos parar de gritar e começar a ouvir”. Para quem decide alocação de capital, a tradução é direta: reduza exposição a setores dependentes de favores estatais; privilegie modelos de negócio resilientes a mudanças regulatórias bruscas; e invista em governança interna que dispense tutela externa.
O fim não está próximo. Mas a janela para se preparar para um Estado mais intervencionista — dos dois lados — está aberta agora.
