No último fim de semana antes do primeiro turno, a campanha presidencial expôs duas estratégias opostas: enquanto o atual presidente evitou holofotes no domingo, rivais de centro-direita e direita ocuparam o vácuo no interior do Nordeste e no Sudeste. O movimento antecipa um cenário de fragmentação que pode forçar segundo turno e redesenhar a governabilidade a partir de 2027.
O cálculo do silêncio no Planalto
Lula (PT) restringiu a agenda pública a uma caminhada na Zona Leste paulista no sábado. No domingo, zero compromissos oficiais. A ausência não é improvisação: pesquisas internas indicam que a exposição excessiva do chefe do Executivo em reta final costuma mobilizar o eleitorado adversário mais que o próprio.
No único evento, o presidente reforçou a cruzada contra apostas esportivas — assinou decreto na sexta (25) proibindo a operação de bets e prometeu fiscalização dura contra casas clandestinas. O discurso mirou a classe C e D, onde o endividamento com jogos online disparou 340% em 18 meses, segundo Banco Central.
Outra bandeira: o fim da escala 6×1, projeto que tramita no Congresso. A pauta dialoga com sindicatos, mas divide o centrão, peça-chave para qualquer governo no Parlamento.
Direita coordenada: interiorização e pautas de costumes
Flávio Bolsonaro (PL) desenhou rota cirúrgica: sábado na Baixada Fluminense e Zona Oeste carioca, domingo em Aracaju e Goiânia. Em Sergipe, prometeu explorar petróleo no litoral — “riqueza que Deus deu” — acenando para royalties municipais. Em Goiás, reduto do agronegócio, reforçou pautas de costumes: redução da maioridade penal, castração química para estupradores, CNH para menores.
O roteiro revela prioridade: consolidar votos no Nordeste (onde Lula venceu em 2022) e blindar o Centro-Oeste. Carreatas em cidades médias custam 1/3 de comícios em capitais e geram conteúdo orgânico para redes sociais.
Centro-direita disputa o voto econômico
Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) miram o eleitor de renda média alta e empresariado. Em Minas, Zema defendeu crédito barato ao agronegócio, seguro-safra e juros menores — trio que atende a FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária). Caiado, em Goiânia, evitou templos como palanque (“religião não é instrumento político”) e endureceu contra publicidade de bets, diferenciar-se do decreto presidencial que foi mais brando na propaganda.
Augusto Cury (Avante) foi além: propõe extinção das apostas ou taxação pesada, citando impacto na saúde mental e economia. A fala ecoa relatório da Fiocruz que estima R$ 24 bi/ano em custos indiretos (absenteísmo, tratamento de dependência).
O que os nanicos sinalizam sobre o eleitorado flutuante
- Renan Santos (Missão): giro por BH e Divinópolis com discurso de corte de impostos — testa teto de 3% do PIB para carga tributária.
- Samara Martins (UP) e Edmilson Costa (PCB): agendas em blocos de carnaval e maracatu — buscam juventude periférica e voto de identidade.
- Hertz Dias (PSTU): lançamento de livro-programa em Brasília — aposta em intelectualidade militante.
Juntos, esses candidatos somavam 4% nas últimas pesquisas agregadas. Em eleição apertada, cada décimo decide ida ao segundo turno.
Agenda compartilhada: o fenômeno dos podcasts
Pelo menos seis candidaturas (PCO, UP, Democrata, DC, PSTU, PCB) participaram dos mesmos debates nos podcasts Kritikê, 3 Irmãos e canal My News. A convergência expõe a nova infraestrutura de mídia alternativa: alcance segmentado, custo zero e engajamento 5x maior que TV aberta na faixa 16-34 anos.
Wilson Grassi (Democrata) foi o único a combinar podcasts com entrevistas ao SBT — estratégia híbrida para furar bolha algorítmica.
Cenários para domingo e o dia seguinte
Três variáveis definirão a madrugada de 4 de outubro:
- Abstenção: acima de 22% beneficia candidaturas de máquina (Lula, Bolsonaro).
- Voto útil antecipado: se eleitores de centro migrarem para Zema ou Caiado já no primeiro turno, a fragmentação cai.
- Judicialização: TSE já recebeu 1.200 pedidos de impugnação de pesquisas — qualquer vazamento de boca de urna pode travar apuração.
O que observar a partir de segunda-feira
Se houver segundo turno, a negociação de tempo de TV começa na terça (6). O centrão (PP, Republicanos, União Brasil) controla 42% do horário eleitoral — moeda de troca para ministérios e emendas. Empresários devem monitorar três sinais imediatos: (1) nome do futuro ministro da Fazenda vazado por aliados, (2) postura do BC sobre Selic na reunião de novembro, (3) regras de transição para o marco das apostas, setor que move R$ 120 bi/ano. Quem leu até aqui sabe: o jogo real começa depois das urnas.
