O presidente Lula (PT) chega à reta final do primeiro turno com a mesma avaliação de quando a campanha começou: 34% de ótimo/bom. O número não mexe há semanas, um fenômeno que quebra o padrão histórico de presidentes que buscaram a reeleição desde 1998.
Enquanto Fernando Henrique, Lula em 2006 e Dilma viram a aprovação subir dois dígitos durante o período eleitoral, o atual mandatário oscila entre 31% e 34%. A negativa, por sua vez, lidera com 40%.
O que os números revelam sobre a campanha
O Datafolha mais recente, divulgado na quinta-feira (24), mostra um quadro parado. Em agosto, no início oficial da disputa, o governo tinha 33% de avaliação positiva. Setembro trouxe 31% e 32%. Agora, 34%. A margem de oscilação fica dentro da margem de erro.
Para Felipe Nunes, diretor da Quaest, essa estagnação é o “principal calcanhar de Aquiles” da campanha. “Existe efeito de campanha, mas não é automático. O presidente ganha palanque, mas também ganha holofote sobre os problemas”, explica.
Como foi com os antecessores
A série histórica do Datafolha, analisada desde 1987, compara os quatro presidentes que disputaram novo mandato. A diferença salta aos olhos:
- FHC (1998): positivo subiu de 38% para 43% no primeiro turno; negativo caiu de 19% para 17%.
- Lula (2006): saltou de 38% para 47% no primeiro turno e atingiu 53% antes do segundo; negativo desabou de 21% para 15%.
- Dilma (2014): foi de 32% para 39% no primeiro turno e 42% no segundo; negativo recuou de 29% para 20%.
- Bolsonaro (2022): variou pouco no primeiro turno (30% para 31%), mas subiu para 38% no segundo turno após medidas de impacto direto na renda.
Bolsonaro foi o único a chegar ao primeiro turno com reprovação maior que aprovação (43% contra 30%) e o único a não se reeleger — mesmo com a recuperação tardia.
Por que a avaliação costuma subir na campanha
Antônio Lavareda, cientista político, resume: o período eleitoral dá ao presidente a chance de publicizar realizações. “É isso, basicamente, que melhora o desempenho deles”, afirma.
Além disso, à medida que a eleição se aproxima, avaliação de governo e intenção de voto tendem a convergir. Quem decide votar no titular passa a avaliar melhor a gestão — movimento que ajuda a explicar a alta de Bolsonaro entre os dois turnos de 2022.
O que cada um destacou no horário eleitoral
FHC focou no Plano Real, controle da inflação e infraestrutura. Lula em 2006 exibiu Bolsa Família (45 milhões de atendidos), fim dos apagões e valorização do salário-mínimo. Dilma colou na herança dos 12 anos do PT: queda da pobreza pela metade, nova classe média de quase 120 milhões, Pronatec e Marco Civil da Internet.
Bolsonaro, em 2022, explorou a gestão da pandemia, recuperação econômica e, sobretudo, a queda no preço dos combustíveis. Medidas com efeito imediato entraram em vigor durante a campanha: Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600, auxílio-gás ampliado, benefícios a caminhoneiros e taxistas.
O fator “Master” e a campanha mais curta
Lavareda aponta o escândalo do banco Master como desvio de atenção que travou a narrativa do governo. “Está tomando conta do quadro de referência do eleitor”, diz.
Há ainda uma diferença estrutural: até 2014, a campanha durava 90 dias e começava em julho. A legislação de 2016 reduziu para 45 dias. Menos tempo para reverter percepções consolidadas.
E agora? O que observar daqui pra frente
Nunes não descarta recuperação no segundo turno — o padrão histórico aponta para isso. Mas alerta: “O eleitor pode votar no presidente por comparação com o adversário sem passar a avaliar bem seu governo. A experiência de Bolsonaro mostra o limite: a avaliação melhorou, mas ele perdeu”.
Para o empresário e investidor, o sinal claro é: a aprovação estagnada na casa dos 34% indica que o eleitorado não sente melhora concreta na renda ou no custo de vida, apesar do palanque. Medidas de impacto direto no bolso — como reajustes de benefícios ou desonerações — foram o gatilho que moveu a agulha em 2006, 2014 e no segundo turno de 2022. Sem elas, a tendência é de manutenção do cenário atual.
Fique atento aos anúncios de última hora e à migração do voto “regular” (hoje 24%) para “bom” ou “ruim”. Esse movimento, mais que as manchetes, ditará o rumo da economia nos próximos meses.
