A jornalista Míriam Leitão acaba de colocar o dedo na ferida que o mercado financeiro prefere não olhar: a ausência de um compromisso democrático formal por parte do senador Flávio Bolsonaro, principal articulador da provável candidatura presidencial de 2026.
Em coluna publicada no domingo (27), a comentarista traça um paralelo direto com 2002. Naquele ano, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva foi pressionado a assinar a “Carta aos Brasileiros” para acalmar os agentes econômicos. Hoje, a dúvida não é cambial ou fiscal — é institucional.
Por que a democracia virou variável macroeconômica
O argumento central da colunista é simples e brutal para quem opera com risco: não existe liberdade econômica duradoura sem freios e contrapesos políticos. O poder sem limites, alerta ela, contamina contratos, afasta capital de longo prazo e transforma o ambiente de negócios em aposta binária.
O “passivo autoritário” citado no texto não é retórica. Ele se materializa em declarações recentes do próprio senador. Em junho de 2024, em entrevista à Folha de S.Paulo, Flávio Bolsonaro foi explícito: o eleito em 2026 deveria se comprometer com o “uso da força” contra o Supremo Tribunal Federal, caso a corte declarasse inconstitucional um eventual indulto aos condenados pelo 8 de janeiro.
O que está em jogo não é impeachment — é interferência direta
A distinção feita pelo senador é técnica e deliberada. Ele não falou em processo constitucional de impedimento de ministros. A expressão usada foi “interferência direta entre os poderes”. Para analistas de risco político, isso sinaliza disposição de romper a separação das funções estatais — o que, na prática, equivale a rasgar o contrato social que sustenta a previsibilidade jurídica.
- Declaração pública sobre “uso da força” contra o STF: junho/2024
- Contexto: eventual indulto a condenados pelo 8 de janeiro
- Termo empregado: “interferência direta entre os poderes”
- Posição sobre tentativa de golpe: nega existência, trata como anedota
Até o momento, não houve nenhum gesto público do senador no sentido de dissipar essas dúvidas. Pelo contrário: a promessa de “subir a rampa com o pai” reforça a leitura de continuidade de um projeto que, nas palavras da colunista, carrega “enorme passivo autoritário”.
O mercado precificou o risco errado
Historicamente, o mercado brasileiro precifica risco fiscal, risco cambial e risco regulatório. O risco democrático costuma entrar na planilha apenas quando a ruptura já ocorreu. A tese de Leitão inverte a lógica: a erosão institucional antecede a crise econômica, não o contrário.
Países que perderam graus de liberdade política viram, em sequência, fuga de capitais, alta do prêmio de risco soberano e judicialização de contratos privados. O Brasil tem instituições fortes, mas elas não são autoexecutáveis — dependem de atores que aceitem jogar pelas regras.
O que observar daqui para frente
A campanha de 2026 ainda não começou oficialmente, mas o tabuleiro está posto. Três variáveis merecem monitoramento contínuo por quem aloca capital no país:
- Se haverá cobrança pública por uma “Carta aos Brasileiros” versão 2026 — e quem a assinará
- Como o Congresso e o STF reagirão a eventuais ameaças de “uso da força” durante o período eleitoral
- O comportamento do dólar e da curva de juros longos diante de sinais de normalização ou escalada institucional
A lição de 2002 não foi apenas sobre Lula. Foi sobre a capacidade do sistema de exigir compromissos claros antes da posse. Quem ignora o silêncio atual pode estar precificando um cenário que não se sustenta.
