Economia

Brasil no fundo do ranking de matemática: o que isso custa à sua empresa

Gráfico mostra Brasil em 71º no ranking PISA de matemática com 377 pontos, impacto nas empresas
Brasil ocupa 71ª posição no PISA de matemática: déficit educacional ameaça competitividade empresarial

O Brasil marcou 377 pontos no PISA de matemática e caiu para a 71ª posição global. O número não é apenas uma estatística educacional — é um alerta direto para quem contrata, investe ou planeja expansão nos próximos cinco anos.

Enquanto o país discute reformas no Congresso, a força de trabalho que entrará no mercado até 2030 já está sendo formada hoje. E os dados mostram uma defasagem que nenhum programa de capacitação corporativa consegue remediar sozinho.

O abismo que separa o Brasil da Ásia

As quatro primeiras posições do ranking são ocupadas por regiões de população chinesa: Pequim-Xangai-Jiangsu-Zhejiang (612 pontos), Singapura (563), Macau (549) e Taiwan (546). A diferença para o Brasil supera 160 pontos — o equivalente a quase quatro anos escolares de aprendizado, segundo a própria OCDE.

Não se trata de vantagem cultural isolada. A China continental precisou desmontar um modelo ideológico que classificava a matemática teórica como “burguesa” durante o maoísmo. A virada veio com investimento direcionado e a compreensão de que educação básica é infraestrutura econômica, não gasto social.

O Japão, quinto colocado com 536 pontos, reconstruiu seu sistema educacional após a devastação da Segunda Guerra. O resultado não é coincidência: países que trataram o ensino de base como prioridade de Estado colhem hoje mão de obra apta a ocupar postos de alta complexidade tecnológica.

O custo invisível para o setor produtivo

Empresas brasileiras já sentem o impacto na ponta. A Confederação Nacional da Indústria estima que a baixa proficiência em matemática reduz a produtividade média em até 18% nas áreas que exigem raciocínio quantitativo — logística, engenharia, finanças, tecnologia.

O problema não se resolve com contratação de estrangeiros. O Brasil tem tradição respeitável em matemática avançada: ocupa a 19ª posição mundial em matemáticos com estudos de destaque (30 no total). Mas são 1.386 nos Estados Unidos, 232 na França, 224 na Alemanha. A elite acadêmica existe; a base que a alimenta, não.

  • 377 pontos — nota do Brasil no PISA 2025 (matemática)
  • 71º lugar — posição entre 81 economias avaliadas
  • 612 pontos — líder Pequim-Xangai-Jiangsu-Zhejiang
  • 160+ pontos — gap para o topo (≈ 4 anos escolares)

Por que o ensino médio não entrega o básico

O modelo brasileiro ainda replica a lógica do século XIX que o próprio Évariste Galois criticava: acúmulo de conteúdo sem tempo para reflexão. Alunos passam o dia ouvindo ou repetindo, sem desenvolver a capacidade de resolver problemas novos — a habilidade que o mercado mais valoriza e o PISA mais cobra.

Dados do INEP mostram que apenas 5% dos concluintes do ensino médio atingem níveis de proficiência considerados adequados para formações STEM. O restante entra na universidade ou no mercado com lacunas que exigem reaprendizado caro e demorado.

Mas o efeito mais relevante aparece na desigualdade de oportunidades. Escolas privadas de elite brasileiras alcançam médias próximas a 500 pontos — ainda abaixo da média da OCDE (472), mas competitivas. A rede pública, que atende 80% dos estudantes, puxa a média nacional para baixo.

O que observar daqui para frente

O próximo ciclo do PISA será aplicado em 2025 com resultados previstos para 2026. Até lá, três variáveis merecem monitoramento contínuo por quem toma decisão de investimento em capital humano:

  • Implementação efetiva do Novo Ensino Médio — se a flexibilização curricular fortalecer ou diluir a carga de matemática;
  • Expansão do tempo integral em escolas públicas — única via comprovada para elevar proficiência em larga escala;
  • Políticas de atração e retenção de professores de exatas — hoje, 40% das vagas de matemática no ensino médio público são ocupadas por docentes sem formação na área.

Empresas que internalizarem esses indicadores no planejamento estratégico — ajustando expectativas de contratação, orçando programas de nivelamento e pressionando por políticas públicas baseadas em evidência — terão vantagem competitiva mensurável. O Brasil não resolve seu déficit educacional no curto prazo. Quem entende a profundidade do buraco para de esperar que o sistema entregue pronto e passa a construir suas próprias pontes.