Economia

O segredo do caixa das estatais: 12 empresas no radar de risco e a conta que pode chegar para você

Navio fragata classe Tamandaré em construção no estaleiro da Emgepron com bandeira do Brasil
Programa das Fragatas Tamandaré coloca Emgepron no radar de risco fiscal do governo federal

O governo federal admitiu oficialmente que a estatal militar Emgepron pode precisar de dinheiro do Tesouro para tocar o programa das Fragatas Classe Tamandaré. A inclusão da empresa no Anexo de Riscos Fiscais eleva para 12 o número de estatais sob alerta de socorro financeiro futuro.

O risco é classificado como “remoto” para a construtora naval, mas o sinal de alerta acende justamente quando o arcabouço fiscal aperta o cinto: qualquer aporte novo disputa espaço direto com Saúde e Educação no Orçamento.

O mapa da mina: quem está na lista e qual a gravidade

O documento enviado ao Congresso junto com a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) funciona como um raio-X do que pode dar errado nas contas públicas. A novidade é a entrada da Emgepron, responsável pelos navios da Marinha, juntando-se a velhas conhecidas do contribuinte.

No topo da escala de perigo — com chances “provável” ou “possível” de precisar de grana já no curto prazo — estão duas gigantes:

  • Correios: Risco “provável” até 2030. Já tomou R$ 12 bi emprestados, negocia mais R$ 7 bi e tem R$ 6 bi de aporte direto previstos para 2027 no Orçamento.
  • ENBPar (Angra 1 e 2): Risco “possível” constante. Controla as usinas nucleares e já tem aporte previsto para 2027.

As outras nove operam em patamar “remoto” hoje, mas a maioria vê o risco subir para “possível” a partir de 2028. É o caso do BNB, Casa da Moeda, Ceasaminas, quatro Companhias Docas, a Codern (RN) e a Infraero.

Por que a Emgepron entrou no radar agora?

A estatal lucrou R$ 319,5 milhões no ano passado, mas há um detalhe crucial: o lucro veio 100% de aplicações financeiras. A operação principal — construir navios — dá prejuízo. Isso se repete desde 2022.

O diagnóstico do Tesouro aponta “insuficiência de recursos para finalizar o Programa Fragatas Classe Tamandaré”, citando elevação de custos e reajustes contratuais. A conta é pesada e o fluxo de caixa não fecha sozinho.

Mas o efeito mais relevante aparece em outro setor: a geopolítica.

O “tarifaço” de Trump e as peças americanas nas fragatas

Uma nota técnica do Ministério da Defesa, obtida pela reportagem, revela um risco não contabilizado na tabela oficial: a lei de reciprocidade comercial brasileira.

Se o Brasil retaliar as tarifas de Donald Trump, o custo das fragatas explode. O motivo? As embarcações da classe Tamandaré têm “notável presença de peças americanas”. O governo segura a retaliação esperando negociações, mas o risco cambial e de supply chain já bate à porta do estaleiro.

O fantasma de 2019 e a regra do jogo atual

Não é a primeira vez que a Emgepron bate à porta do Tesouro. No fim de 2019, no governo Bolsonaro, uma brecha no teto de gastos permitiu injetar R$ 7,6 bilhões (valores da época) na estatal fora do limite de despesas. O TCU reprovou a manobra.

Hoje, a regra mudou. O novo arcabouço fiscal coloca qualquer aporte a estatais dentro do teto geral. Significa que cada real para salvar a Emgepron, os Correios ou a ENBPar é um real a menos para creches, postos de saúde ou obras de infraestrutura. Os militares tentaram manter a exceção em 2023, mas perderam a votação no Congresso.

O que observar daqui para frente

O Anexo de Riscos é atualizado todo agosto, junto com a proposta de Orçamento. Três variáveis definem se o risco “remoto” vira “provável” e vira despesa real:

  • Câmbio e inflação global: impactam contratos de longo prazo indexados ao dólar (como o das fragatas).
  • Decisão sobre reciprocidade comercial: se houver retaliação aos EUA, o custo das peças sobe na hora.
  • Capacidade de geração de caixa operacional: enquanto Emgepron e Correios dependerem de “juro sobre caixa” para fechar no azul, a dependência do Tesouro só cresce.

Para o investidor e o gestor de negócios, o recado é claro: a contabilidade criativa das estatais mascara buracos operacionais que, cedo ou tarde, viram linha orçamentária. Acompanhar as atualizações de agosto do Anexo de Riscos deixou de ser burocracia — virou termômetro de para onde vai o dinheiro público nos próximos anos.