Faltando uma semana para o primeiro turno, os presidenciáveis usaram o sábado e o domingo para sinalizar prioridades que vão muito além do palanque. Proibições no setor de apostas, crédito rural, juros e exploração de petróleo entraram nos discursos — e desenham cenários distintos para quem investe ou empreende no Brasil.
A ofensiva contra as bets e o efeito no caixa das plataformas
O tema mais transversal foi a regulação das apostas online. Lula (PT) aproveitou caminhada na Zona Leste de São Paulo para defender a proibição total da operação de bets, medida que assinou na véspera. “Não matando o povo pobre, endividando o povo pobre, vendendo mentira”, resumiu. O presidente-candidato prometeu ainda intensificar a fiscalização sobre casas clandestinas.
Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) ecoaram a restrição. Caiado defende “restrição dura às publicidades”; Cury propõe extinção ou taxação maior, citando “consequências graves à economia e à saúde mental”. Para o setor, o recado é claro: o próximo governo deve endurecer o marco regulatório, com impacto direto em receitas publicitárias e valoração das licenças.
Agro e juros: a pauta de Zema para o interior
Em Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) mirou no eleitorado do agronegócio. Em Pouso Alegre e Varginha, cobrou mais crédito rural, criação de seguro-safra e queda de juros para “viabilizar maior nível de produção”. A combinação — crédito direcionado + hedge climático + custo de capital menor — é a equação que o setor cobra há anos. Se eleito, a pressão sobre o Banco Central e o BNDES será imediata.
Petróleo no Nordeste: a aposta de Flávio Bolsonaro
O candidato do PL levou a bandeira da exploração offshore para Sergipe. Em carreata na orla de Atalaia, prometeu “tirar do fundo do mar e trazer para o povo sergipano” a riqueza do pré-sal local. O discurso insere a expansão da fronteira petrolífera no Nordeste como vetor de royalties e emprego — tema sensível para a Petrobras e para leilões futuros da ANP.
Jornada 6×1 e custo de mão de obra
Lula voltou a defender o fim da escala 6×1, projeto que tramita no Congresso. A medida, se aprovada, eleva o custo unitário de trabalho em setores intensivos em mão de obra (varejo, serviços, indústria leve). Empresários do setor já calculam necessidade de contratação adicional ou automação para manter a produtividade.
O que observar na reta final
- Detalhamento do decreto sobre bets: a publicação no Diário Oficial desta semana dirá se a proibição é total ou setorial — e qual o prazo de adaptação.
- Posicionamento do BC: falas de Zema sobre juros podem antecipar tensão entre Executivo e autoridade monetária no próximo mandato.
- Agenda de leilões de petróleo: a promessa de expansão no Nordeste exige licenças ambientais e oferta de áreas — acompanhe o calendário da ANP.
- Tramitação da PEC da jornada: votação em comissão especial pode acelerar ou travar a proposta nas primeiras semanas do novo governo.
O fim de semana não teve debates televisionados nem fact-checking em tempo real. Teve, isso sim, candidatos testando em praça pública as medidas que pretendem transformar em decreto, projeto de lei ou indicação para o Banco Central. Quem lê nas entrelinhas da agenda de campanha antecipa o mapa de riscos e oportunidades do próximo ciclo.
