Economia

O segredo dos R$ 32 bi: Como a eleição virou o jogo na Bolsa

Gráfico da Bolsa brasileira com bandeira do Brasil e silhuetas de Lula e Flávio Bolsonaro, representando impacto eleitoral nos R$ 32 bi
Mercado reage a empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro com entrada de R$ 10 bi de estrangeiros em setembro.

Pesquisas mostram empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, e o mercado já reagiu: estrangeiros injetaram quase R$ 10 bilhões na Bolsa apenas em setembro. Mas a verdadeira jogada está no que os grandes gestores compram — e evitam — para cada cenário.

O diagnóstico do momento: empate técnico e dinheiro voltando

O Datafolha de setembro cravou 40% para Lula contra 36% para Flávio, diferença dentro da margem de erro de dois pontos. Em agosto, a vantagem era de seis pontos. A percepção de disputa acionou a chave da aversão a risco: o Ibovespa saltou 6,4% no mês, enquanto o dólar recuou 0,25%.

O termômetro estrangeiro confirma a virada. O saldo líquido na B3 ficou positivo em R$ 9,6 bilhões até o dia 22 de setembro, revertendo a fuga de R$ 18,1 bilhões de agosto. No ano, o ingresso líquido supera R$ 32,6 bilhões.

Renda fixa: o porto seguro que não paga para ver

Para João Ferreira, sócio da One Investimentos, a prioridade tática são ativos atrelados à Selic ou ao CDI. Tesouro Selic e CDBs de bancos grandes oferecem remuneração que acompanha a taxa básica sem o vaivém dos juros futuros.

“São ativos que não variam tanto porque a marcação a mercado segue o índice de referência, não a expectativa de juros longos”, explica. Para carteiras concentradas, a diversificação entre classes deixa de ser opcional.

Ações defensivas: onde a receita não depende do humor de Brasília

Na renda variável, a blindagem passa por setores com receita indexada à inflação e contratos de longo prazo. Ferreira destaca três pilares:

  • Serviços públicos: saneamento e energia elétrica, com fluxo de caixa previsível e baixa sensibilidade a juros.
  • Construção de baixa renda: empresas expostas ao Minha Casa, Minha Vida, política de Estado que sobrevive a trocas de governo.
  • Commodities: Petrobras e Vale seguem como hedge natural contra desvalorização cambial e alta de matérias-primas.

Cenário Lula: qualidade e resiliência (visão Citi)

O relatório do Citi para um eventual governo petista privilegia companhias capazes de sustentar resultados em diferentes ambientes macro. A lista traz Cury Construtora, Embraer, WEG e BTG Pactual — nomes com balanços sólidos, geração de caixa consistente e exposição a temas estruturais (defesa, transição energética, habitação).

Cenário Flávio: aposta no ciclo e alavancagem (visão Citi)

Se a leitura do mercado for de vitória da oposição, o banco aponta para ativos cíclicos e alavancados, sensíveis a queda de juros e retomada do consumo. O radar inclui Cyrela, Assaí, Hapvida, Petrobras, Vale e B3.

A tese: juros menores barateiam o crédito imobiliário e de varejo, beneficiando construtoras, redes de atacado e operadoras de saúde verticalizadas.

O consenso inesperado: Petrobras e o fator petróleo

Independentemente do vencedor, o BTG Pactual classifica a Petrobras como “ativo de consenso”. A alta do petróleo em 2024 turbinou a ação, e a estatal permanece no radar de gestores de ambos os espectros como proteção cambial e pagadora de dividendos.

O banco também cita B3, XP, BTG Pactual, Rede D’Or, Cyrela e Motiva como papéis que reagem bem a uma leitura “positiva” do desfecho eleitoral — código do mercado para sinalização de responsabilidade fiscal.

O que vem depois das urnas: o aviso da XP e JPMorgan

Historicamente, a volatilidade explode após a eleição, não antes. O gatilho não é o voto, mas a composição da equipe econômica e os primeiros sinais sobre contenção de gastos obrigatórios.

Flávio defende ajuste sem mexer em Previdência ou salário mínimo. Lula propõe frear o crescimento das despesas obrigatórias e aperfeiçoar o arcabouço. Economistas ouvidos pelo mercado, porém, convergem: ajuste duradouro passa, inevitavelmente, por reforma previdenciária e revisão de benefícios sociais.

Seu checklist para os próximos meses

Não existe “carteira eleitoral” perfeita, mas há passos práticos para reduzir ruído:

  • Revise a concentração: se sua alocação aposta tudo em um único cenário, diversifique agora.
  • Mantenha colchão em Selic/CDI: liquidez diária para capturar oportunidades de entrada.
  • Monitore o fiscal, não a urna: anúncios de ministro da Fazenda, meta de resultado primário e tramitação de PEC da Previdência movem preço mais que pesquisa de intenção de voto.
  • Evite alavancagem tática: o custo de carregar posição vendida em cenário de incerteza fiscal costuma superar o ganho potencial.

O mercado já precificou a disputa. O prêmio de risco cairá — ou subirá — conforme a credibilidade do primeiro pacote de medidas do próximo governo. Quem espera a posse para se mexer costuma comprar caro e vender barato.