Economia

Armani à venda? O abismo bilionário entre LVMH, L’Oréal e o legado de Giorgio

Giorgio Armani em escritório com logotipo da marca, simbolizando negociação de venda bilionária
Armani avalia ofertas de LVMH e L'Oréal para fatia de 15% da empresa

A Armani deve iniciar nas próximas semanas rodadas formais de negociação com LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica para a venda de uma fatia de 15%, mas o desfecho está longe de ser garantido. O obstáculo central não é a falta de interessados, mas um abismo de valuation que separa o que a família espera receber do que o mercado está disposto a pagar. Enquanto a casa italiana projeta valor de € 10 bilhões, os potenciais parceiros estacionam entre € 3 bilhões e € 7 bilhões.

O testamento que mudou o jogo

Giorgio Armani protegeu a independência do grupo por cinco décadas. Em seu testamento, porém, determinou que os herdeiros vendessem uma participação minoritária inicial em até 18 meses após sua morte, ocorrida em setembro de 2023. O prazo aperta e a estratégia de transição, conduzida pelo novo CEO Giuseppe Marsocci e pelo Boston Consulting Group, atrasou as conversas previstas para junho.

Agora, a expectativa é que as reuniões aconteçam entre o fim de setembro e o início de outubro. A estrutura prevista prevê que os três gigantes dividam os 15%, garantindo a cada um “um lugar à mesa” sem que nenhum precise assumir o controle sozinho.

Por que os gigantes hesitam?

Apesar do prestígio da marca, nenhum dos três candidatos naturais demonstra apetite por um cheque grande no curto prazo. Os motivos são distintos, mas convergem para a cautela:

  • EssilorLuxottica: Focada em expansão de med-tech e EUA, tem contrato de licenciamento de óculos até 2038. Qualquer aporte seria mais gesto de lealdade à família do que movimento estratégico.
  • L’Oréal: Prioriza proteger o lucrativo acordo de beleza válido até 2050. Não gere casas de moda — seu investimento na Jacquemus é financeiro, não operacional.
  • LVMH: O encaixe de portfólio é questionável. A Armani fatura forte em faixas de preço inferiores às maisons estrelas do grupo francês e depende mais de moda do que de acessórios de altíssima margem.

A revolução interna para justificar o preço

Para fechar a conta, a nova gestão precisa provar que a empresa cresce sem o fundador. A reestruturação é profunda: conselho reformado com nomes de peso como Marco Bizzarri (ex-Gucci) e Federico Marchetti (fundador da Yoox), além da contratação de Dario Vitale, ex-Miu Miu, para revitalizar a Emporio Armani — responsável por quase 1/3 dos € 2,2 bilhões de receita anual.

O foco declarado é subir a régua: simplificar a estrutura (Giorgio Armani, Emporio, Armani Privé, hotéis, decoração), empurrar a marca para acessórios — “grande oportunidade” segundo Marsocci — e rejuvenescer o apelo sem perder a identidade.

Números mostram eficiência, mas top line preocupa

O pano de fundo macro não ajuda. A receita caiu 2,8% em 2025 (para € 2,19 bi), segundo ano consecutivo de retração, reflexo do ciclo de baixa do luxo global. O contraponto veio no EBITDA, que subiu 3,2% (€ 153 mi), impulsionado por cortes de custo e força da alta-costura (Armani Privé).

Essa dicotomia — faturamento encolhendo, lucro operacional crescendo — alimenta a narrativa dos compradores de que o múltiplo pedido é agressivo para uma empresa em transição criativa e ciclicamente exposta.

E se ninguém comprar?

O plano B está desenhado: uma abertura de capital (IPO). Fontes próximas ao processo admitem que, sem consenso de preço com os “pretendentes preferenciais”, a bolsa se torna o caminho natural para dar liquidez aos herdeiros e financiar a nova fase.

Mas o IPO carrega o mesmo risco da venda privada: convencer o mercado de que a Armani pós-Giorgio não é apenas um arquivo vivo, mas uma máquina de crescimento autossustentável.

O que observar nas próximas semanas

Três sinais ditarão o ritmo: a disposição da LVMH em flexibilizar critérios de portfólio pela relação pessoal com a família Arnault; a capacidade de Vitale entregar uma Emporio “mais jovem, clara e relevante” já nas próximas coleções; e, claro, se o valuation de € 10 bilhões resiste à primeira rodada de due diligence. Para o investidor atento, o termômetro não é a assinatura do contrato, mas a execução da nova estratégia de acessórios e a estabilização da receita em 2026.