Investidores estrangeiros compraram US$ 942 bilhões em ações americanas e cotas de fundos nos 12 meses encerrados em julho — o maior volume acumulado em quase quatro décadas de registros do Tesouro. O movimento sinaliza uma rotação massiva: enquanto a renda variável atrai capital recorde, a demanda por títulos de dívida dos EUA perde força.
O dado esconde uma aceleração recente. Só no segundo trimestre, as aquisições líquidas somaram US$ 426 bilhões, alta de 62% sobre o mesmo intervalo do ano anterior e bem acima do pico trimestral anterior, de US$ 299 bilhões em 2022.
O ritmo mês a mês revela a dinâmica
Os números mensais mostram como o apetite ganhou fôlego e depois arrefeceu:
- Abril: US$ 110 bilhões em compras líquidas
- Maio: aceleração contínua
- Junho: pico de US$ 182 bilhões
- Julho: desaceleração brusca para US$ 3,7 bilhões
Mesmo com a freada de julho, completaram-se seis meses consecutivos de saldo comprador. A valorização de cerca de 20% do S&P 500 no período de 12 meses acompanhou — e possivelmente retroalimentou — esse fluxo.
Tecnologia puxou o desempenho
O índice de referência de Wall Street subiu 14,9% no segundo trimestre, seu melhor resultado desde o mesmo período de 2020. A recuperação veio após uma liquidação breve, gatilhada pelo início do conflito no Irã. Entre os destaques de alta, ações de semicondutores e hardware — Sandisk, Western Digital e Intel — figuraram entre as maiores valorizações.
Mas o trimestre anterior já fora forte: US$ 263 bilhões em entradas. E o último trimestre de 2024 trouxe outros US$ 274 bilhões. A consistência impressiona.
O outro lado: dívida perde atrativo
Enquanto ações absorviam capital, a demanda estrangeira por títulos americanos encolheu. No segundo trimestre, entraram US$ 188 bilhões líquidos em papéis de dívida — queda frente aos US$ 314 bilhões do primeiro trimestre.
O recuo coincide com a redução da posição da China em Treasuries para US$ 618 bilhões, menor nível desde agosto de 2008. Pequim vem diversificando para ouro, títulos de agências e outros ativos.
Diversificação asiática explica parte do movimento
Brad Setser, do Council on Foreign Relations, aponta que o forte desempenho de bolsas como Coreia do Sul e Taiwan levou investidores locais a reduzir concentração. Samsung e Hynix subiram tanto que gestores atingiram limites internos de alocação e buscaram exposição nos EUA.
“É muito raro ver saídas superiores a US$ 200 bilhões da Coreia para ações globais, sobretudo americanas”, afirma Setser. O padrão dos fluxos, diz ele, é compatível com esse realocamento e com a força do dólar.
O que observar daqui para frente
O cenário desenha um dilema: o mundo está “muito otimista em relação às ações americanas”, nas palavras de Setser, justamente quando os EUA registram déficit fiscal elevado e dependem de capital externo para financiá-lo. A sustentabilidade desse duplo movimento — entrada recorde em bolsa, saída relativa de dívida — dependerá de como juros, lucros corporativos e risco geopolítico evoluírem nos próximos trimestres. Para quem aloca capital, o sinal está dado: a preferência revelada dos maiores investidores globais hoje aponta para equity, não para renda fixa soberana.
