O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manteve silêncio sobre os governadores Raquel Lyra (PSDB-PE) e JHC (PL-AL) durante agendas oficiais em Pernambuco e Alagoas nesta semana. A omissão gerou desconforto imediato entre aliados regionais, que esperavam ao menos menções protocolares aos chefes dos executivos estaduais.
A estratégia de não nomear os dois gestores — ambos de oposição ao governo federal — expõe um dilema tático: como equilibrar a liturgia do cargo com a construção de palanques estaduais para 2026?
O que aconteceu nos dois estados
Em Recife, Lula participou da entrega de unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida e da assinatura de ordens de serviço para obras de mobilidade. Em Maceió, a agenda incluiu anúncios de investimentos em saneamento e infraestrutura urbana. Em nenhum dos discursos o presidente citou nominalmente os governadores anfitriões.
Raquel Lyra e JHC estiveram presentes nos palanques. Ambos cumprimentaram o presidente, mas não discursaram. A ausência de menções — praxe em atos republicanos quando há alinhamento político — foi lida como sinal deliberado.
Por que o silêncio incomoda a base
Dirigentes do PT nos dois estados relatam frustração. A expectativa era de que Lula usasse a visibilidade federal para constranger, ainda que sutilmente, adversários que comandam máquinas estaduais estratégicas. Pernambuco e Alagoas somam 11 milhões de eleitores e são peças-chave no tabuleiro nordestino.
- Pernambuco: Raquel Lyra elegeu-se com apoio de bolsonaristas no 2º turno de 2022, mas tenta reposicionamento ao centro.
- Alagoas: JHC, do PL, é visto como potencial candidato ao Senado ou vice em chapa nacional da oposição.
Para petistas locais, a “normalidade institucional” pregada pelo Planalto soa como concessão gratuita a quem não retribui apoio no Congresso.
O cálculo do Planalto
Auxiliares diretos de Lula argumentam que a postura evita transformar atos de governo em palanque antecipado. A lógica: manter canais abertos com governadores de oposição garante execução de verbas federais — emendas, PAC, fundos de participação — sem rupturas administrativas.
Historicamente, Lula sempre tratou governadores de outros partidos com deferência pública. Em 2003, manteve relação cordial com tucanos como Geraldo Alckmin (SP) e Aécio Neves (MG) apesar da polarização nacional.
Risco de erosão local
O perigo, segundo analistas, é a desmobilização de militância e prefeitos aliados. Em Pernambuco, 120 dos 184 prefeitos são de partidos da base federal. Em Alagoas, a proporção é semelhante. Sem sinalização clara do topo, esses gestores ficam sem discurso para defender o governo nas bases.
Um deputado federal pernambucano resumiu o clima: “Não pedimos ataque, pedimos presença. Quem não é citado não existe no imaginário do eleitor”.
O que observar daqui para frente
Três variáveis dirão se a estratégia do silêncio foi acerto ou erro tático:
- Votação de pautas prioritárias do governo nas bancadas dos dois estados na Câmara e no Senado.
- Movimentação de Raquel Lyra e JHC em 2025: aproximação ou endurecimento oposicionista.
- Reação de prefeitos da base: se começarem a ignorar atos federais, o sinal de alerta acende.
Até lá, o recado subliminar está dado: no Nordeste de 2024, a liturgia do cargo pesa mais que a guerra de palanques. Resta saber se a base aceita a conta.
