Cultura

Como um estúdio da PB criou a “Disney do Sertão” e venceu a Ancine

Equipe do estúdio paraibano Caçadores de Botija celebrando verba da Ancine para primeiro longa de animação de João Pessoa
Estúdio paraibano conquista verba federal para produzir "Caçadores de Botija", primeiro longa de animação de João Pessoa.

Um estúdio paraibano acaba de garantir verba federal para produzir o primeiro longa-metragem de animação da história de João Pessoa, misturando folclore nordestino com padrão visual de grandes estúdios internacionais. O projeto “Caçadores de Botija” saiu do papel para se tornar um case de como propriedade intelectual regional escala para o mercado global. A resposta de como um time fora do eixo Rio-SP conquistou a Ancine e prêmios internacionais está na engenharia de produção que eles criaram.

A “Disney do Sertão” tem método, não só magia

Fundado em 2015, o Mold Studio não apenas imita referências como Gravity Falls ou Aladdin. A equipe desenvolveu uma técnica proprietária batizada de animação fullout, evolução do cut-out tradicional que integra riggs digitais com animação quadro a quadro. Na prática, isso reduz o custo por minuto final — métrica crítica para investidores — sem perder a fluidez artística exigida por players de streaming e TV.

O diretor executivo Dennis Sabino resume a tese: o Nordeste é pop e viável comercialmente. O portfólio atual valida a hipótese com quatro séries e três longas em desenvolvimento simultâneo, entre eles “Tom Tamborim”, “Turma da Favoritinha” e o universo expandido dos caçadores de botija.

O ativo que abriu as portas da Ancine

“Caçadores de Botija” funciona como flagship do estúdio. A propriedade intelectual nasceu em 2022 e já gerou um curta, uma série e agora o longa “Caçadores de Botija e a Rasga Mortalha”, com 75 minutos. Dois editais da Agência Nacional do Cinema (Ancine) financiarão a produção de 26 episódios de 11 minutos mais o filme para cinema.

A validação de mercado veio antes do dinheiro público. Em 2025, o projeto venceu o prêmio de melhor pitching de animação no MAX BH e foi apresentado no Rio2C, principal mercado audiovisual do país. O currículo internacional inclui passagens por Annecy (França), Ventana Sur (Argentina) e Bogotá Audiovisual Market (Colômbia).

  • Técnica: Fullout (riggs + frame a quadro) — eficiência de cut-out com qualidade de tradicional.
  • Pipeline: Bíblia de projeto completa antes da produção (logline, sinopse, design de personagens, universo narrativo).
  • IP Principal: Caçadores de Botija — 26 eps + 1 longa (75 min) financiados via Ancine.
  • Próximos lançamentos: Longa “Virando Latas” (85 min) e série “Limo e a Pedra” previstos para 2027.

Por que investidores olham para Campina Grande

O Imagineland On The Road 2026, realizado entre 25 e 27 de setembro no Centro de Convenções de Campina Grande, funciona como vitrine dessa cadeia produtiva. A edição anterior ocupou 13 mil m² e mobilizou 600 profissionais do setor, segundo dados do Governo da Paraíba. O evento atrai compradores, distribuidores e talentos — ativos escassos fora dos grandes centros.

A presença de nomes como Zach Roerig (The Vampire Diaries), Lee Jin-Hyuk (ator e cantor sul-coreano) e elenco de High School Musical sinaliza que o evento consolida rota de negócios, não apenas festa de fãs. Para o Mold Studio, a vitrine local acelera parcerias de co-produção e licenciamento.

O que observar daqui para frente

O cronograma de 2027 testa a capacidade de entrega em escala: dois longas e uma série nova saindo do mesmo pipeline. O mercado deve monitorar três variáveis: a execução orçamentária dos editais Ancine sem estouros, a adesão de plataformas de streaming ao conteúdo regionalizado e a retenção de talentos técnicos na Paraíba diante da demanda aquecida. Se o modelo fullout provar replicável, o Nordeste deixa de ser “locação exótica” para virar polo exportador de IP animado.