Economia

Recorde de 40 anos: Por que o capital global está apostando tudo nas ações dos EUA

Gráfico mostra fluxo recorde de US$ 942 bi para ações dos EUA e saída de capital de títulos americanos
Investidores globais rotacionam da renda fixa para ações dos EUA em volume histórico de 40 anos

Investidores estrangeiros injetaram US$ 942 bilhões em ações e fundos americanos nos 12 meses até julho, o maior volume anual da série histórica do Tesouro, iniciada em 1985. Enquanto a bolsa atrai capital como nunca, a dívida dos EUA passa por uma rejeição silenciosa.

Essa rotação brutal — da renda fixa para a variável — redefine o mapa de riscos globais e levanta uma dúvida urgente: o movimento é sustentável ou apenas um respiro antes da volatilidade voltar?

O números por trás da disparada

O segundo trimestre concentrou a força desse movimento. Foram US$ 426 bilhões em compras líquidas entre abril e junho, alta de 62% na comparação anual e bem acima do recorde trimestral anterior, de US$ 299 bilhões, visto em 2022.

Os dados mensais mostram a aceleração e a posterior frenagem:

  • Abril: US$ 110 bilhões
  • Junho: US$ 182 bilhões (pico do período)
  • Julho: US$ 3,7 bilhões (desaceleração brusca)

Foi o sexto mês consecutivo de saldo positivo, embora o ritmo em julho sugira exaustão de curto prazo.

Tecnologia e o efeito S&P 500

O apetite por risco coincidiu com uma valorização de cerca de 20% do S&P 500 na janela de 12 meses. No segundo trimestre, o índice subiu 14,9% — melhor desempenho trimestral desde 2020 —, recuperando-se de uma liquidação breve provocada pelo início do conflito no Irã.

Papéis de tecnologia puxaram a fila. Ações ligadas a semicondutores e hardware, como Sandisk, Western Digital e Intel, figuraram entre os destaques de performance, funcionando como ímãs para o capital externo.

O outro lado: A fuga dos títulos do Tesouro

Enquanto a bolsa bate recordes, a demanda por dívida americana derrete. No segundo trimestre, estrangeiros compraram US$ 188 bilhões em títulos líquidos, queda forte frente aos US$ 314 bilhões do primeiro trimestre.

O movimento mais emblemático vem da China. O volume de Treasuries nas mãos de Pequim caiu para US$ 618 bilhões, menor nível desde agosto de 2008. A estratégia de diversificação chinesa migrou para ouro, dívida de agências e outros ativos, reduzindo a exposição direta ao governo americano.

O que explica a rotação? Limites de concentração e dólar forte

Para Brad Setser, pesquisador do Council on Foreign Relations, parte do volume do segundo trimestre reflete compras represadas de um primeiro trimestre fraco. A tendência de fundo, porém, é estrutural.

Um vetor pouco comentado vem da Ásia. O forte desempenho de bolsas como Coreia do Sul e Taiwan levou investidores locais a estourar limites de concentração em ações próprias — casos de Samsung e Hynix.

Com carteiras excessivamente expostas a poucos ativos domésticos, gestores asiáticos diversificaram para o exterior, majoritariamente para os EUA. Saídas superiores a US$ 200 bilhões da Coreia para ações globais são eventos raros, segundo Setser.

Esse fluxo casa com a valorização do dólar, criando um ciclo virtuoso: ações americanas sobem → atraem capital → fortalecem o dólar → aumentam o retorno em moeda local do investidor estrangeiro.

O que observar daqui para frente

O cenário desenha um paradoxo: o mundo nunca esteve tão otimista com o equity americano justamente quando o déficit fiscal dos EUA exige financiamento externo recorde em títulos.

Se a demanda por Treasuries não se recuperar, os yields tendem a subir, pressionando valuation de ações. Por outro lado, a desaceleração de julho pode ser apenas um ajuste técnico sazonal.

Para o tomador de decisão, o sinal claro é monitorar dois termômetros: o fluxo mensal do Tesouro (TIC) para confirmar se julho foi ponto de inflexão ou ruído, e a posição da China em reservas, indicador-chave da confiança estrutural no ativo de reserva global.