Uma agenda de campanha em Araripina terminou em dois boletins de ocorrência cruzados e acusações de agressão, calúnia e violência política de gênero. A ex-deputada Roberta Arraes (PP) e o ex-prefeito Raimundo Pimentel (PSD) divergem sobre o que aconteceu nos corredores do Hospital de Câncer do Sertão na sexta-feira (25). A versão que prevalecerá pode definir rumos eleitorais no Sertão do Araripe.
O episódio que paralisou a inauguração
O evento marcava a entrega do Hospital de Câncer do Sertão do Araripe, obra concluída na gestão da governadora Raquel Lyra (PSD), candidata à reeleição. Ambos os políticos integram a base aliada, mas comandam grupos rivais na região. Segundo o registro policial de Arraes, Pimentel a abordou “de forma agressiva e descontrolada”, com ofensas verbais seguidas de empurrão intencional com o ombro.
O documento descreve ainda intimidação para restringir atividades de campanha. A ex-deputada requereu medidas protetivas de urgência e encaminhamento do caso à Justiça Eleitoral e ao Ministério Público Eleitoral. A Polícia Civil não se manifestou sobre os pedidos até o momento.
A versão do ex-prefeito e o contra-ataque judicial
Raimundo Pimentel nega qualquer contato físico. Em vídeo nas redes sociais, afirmou que a confusão começou quando Arraes arrancou, amassou e jogou no chão um adesivo de campanha dele que estava com a esposa, a deputada Socorro Pimentel (PSD), líder do governo na Alepe. “Eu fiz somente um comentário: ‘Por que essa raiva?’. Ela saiu gritando que eu a agredi”, declarou.
Horas depois, o ex-prefeito registrou queixa por denunciação caluniosa e anunciou processos por calúnia e difamação. A estratégia jurídica sinaliza disputa que extrapola o campo eleitoral e migra para o Judiciário comum e eleitoral simultaneamente.
Violência política de gênero: o termo que muda o peso do caso
Arraes classificou o episódio como violência política de gênero — conceito previsto na Lei 14.192/2021, que criminaliza condutas para impedir ou dificultar a participação política de mulheres. A tipificação, se confirmada, agrava penas e atrai competência da Justiça Eleitoral. Especialistas observam que a denúncia feita em delegacia comum, com pedido de remessa à esfera eleitoral, acelera a apuração.
- Lei 14.192/2021: define violência política contra a mulher
- Penas: reclusão de 1 a 4 anos e multa, além de inelegibilidade
- Competência: Justiça Eleitoral para crimes conexos ao processo eleitoral
O tabuleiro eleitoral no Araripe
Os dois concorrem a uma das 49 vagas de deputado estadual em Pernambuco. A região do Araripe concentra cerca de 300 mil eleitores distribuídos em 10 municípios. Arraes tem base em Ouricuri; Pimentel, em Araripina. Em 2022, a diferença de votos entre os grupos girou em torno de 12 mil sufrágios. Qualquer desgaste agora repercute na capilaridade de campanha nas próximas semanas.
Mas o efeito mais relevante aparece na relação com o Palácio do Campo das Princesas. A governadora Raquel Lyra precisará dos dois palanques no segundo turno, caso a disputa estadual se estenda. O incidente força uma escolha silenciosa: intervir publicamente e riscar um dos lados, ou silenciar e deixar a Justiça ditar o ritmo.
O que observar daqui para frente
Três movimentações definirão os próximos capítulos: a concessão ou não das medidas protetivas pela Justiça, o encaminhamento do inquérito à esfera eleitoral e a eventual abertura de procedimento no Conselho de Ética da Alepe, já que Socorro Pimentel ocupa a liderança do governo. Para quem acompanha o xadrez pernambucano, o sinal claro é que a campanha no Sertão deixou de ser apenas sobre propostas — virou disputa de sobrevivência política.
