O Hospital São José, em Criciúma, acaba de inaugurar uma ala inteiramente dedicada à dermatologia com foco em oncologia cutânea. A estrutura eleva o patamar do atendimento pelo SUS na região e coloca o diagnóstico precoce no centro da estratégia clínica.
Mas a verdadeira revolução não está no espaço físico — está na forma como as especialidades agora conversam entre si.
O que muda para o paciente na prática
Antes, o caminho entre a suspeita de câncer de pele e o início do tratamento podia levar semanas, com idas e vindas entre consultórios isolados. Agora, dermatologistas, cirurgiões oncológicos, oncologistas clínicos, especialistas em cabeça e pescoço e radioterapeutas compartilham o mesmo corredor — e a mesma prontuário eletrônico.
Segundo o dermatologista Paulo Henrique Martins, especialista em Oncologia Cutânea (CRM/SC 18967 | RQE 19633), a integração reduz gargalos:
- Biópsia e resultado no mesmo fluxo hospitalar
- Discussão de caso em tumor board semanal multidisciplinar
- Cirurgia e radioterapia agendadas em sequência, não em paralelo
- Acompanhamento contínuo sem perda de informação entre especialistas
Números que dimensionam o impacto
A região sul de Santa Catarina registra incidência de melanoma acima da média nacional — fator atribuído à alta exposição solar ocupacional (agricultura, pesca, construção civil) e ao fenótipo da população, majoritariamente de pele clara.
O novo serviço atende:
- Pacientes SUS encaminhados pela regulação estadual
- Casos de alta complexidade referenciados de municípios vizinhos
- Demanda espontânea de lesões suspeitas na porta de emergência
A superintendente de Operações, Márcia Campos, afirma que a ala foi dimensionada para absorver 30% mais procedimentos dermatológicos/ano sem ampliar o quadro de leitos gerais — ganho de eficiência pura.
Por que a multidisciplinaridade decide o desfecho
Câncer de pele não é uma doença única. Carcinoma basocelular, espinocelular e melanoma exigem condutas radicalmente diferentes. Em estágios avançados, a decisão entre cirurgia radical, linfadenectomia, imunoterapia ou radioterapia adjuvante depende de consenso entre especialistas que, até ontem, mal se cruzavam no café.
Agora, o tumor board semanal reúne:
| Especialidade | Papel no caso |
|---|---|
| Dermatologia oncológica | Diagnóstico, estadiamento, seguimento |
| Cirurgia oncológica | Ressecção com margens controladas |
| Oncologia clínica | Terapia sistêmica (alvo, imuno, quimio) |
| Cirurgia cabeça e pescoço | Linfonodos cervicais/faciais complexos |
| Radioterapia | Adjuvância, paliativo, irressecáveis |
Essa arquitetura evita o erro mais comum: tratar o tumor primário sem considerar metástase oculta ou indicação de terapia adjuvante.
O que observar nos próximos meses
Dois indicadores dirão se a modelo funciona: tempo médio entre biópsia e primeiro tratamento (meta interna: < 21 dias) e taxa de discussão em tumor board para casos estádios II-IV (alvo: 100%).
Gestores de outras instituições já monitoram a experiência — se os números se confirmarem, a tendência é replicar o formato em polos regionais de Santa Catarina e Rio Grande do Sul ainda em 2025.
Para o paciente, a mensagem é direta: lesão nova, que sangra, muda de cor ou não cicatriza em 30 dias agora tem endereço certo — e equipe completa — no Hospital São José.
