A prevalência de doenças inflamatórias intestinais (DII) saltou de 30 para 158 casos por 100 mil habitantes entre 2012 e 2025, segundo estudo inédito apresentado no 74º Congresso Brasileiro de Coloproctologia. O aumento de mais de cinco vezes transforma uma condição antes rara em um desafio estrutural para o sistema de saúde. A projeção para 2035 indica que o cenário pode piorar drasticamente antes de melhorar.
O ponto de inflexão que ninguém explica
O ritmo de novos diagnósticos (incidência) subiu de 9,35 para 12,34 por 100 mil habitantes no período. O dado que intriga os pesquisadores é a mudança brusca de curva a partir de 2018. Não houve alteração genética da população em tão pouco tempo.
Três hipóteses principais circulam entre os especialistas: maior visibilidade da doença, melhora no acesso ao diagnóstico ou um fator ambiental ainda não mapeado. O coloproctologista Abel Quaresma, um dos líderes da pesquisa, admite: o estudo levanta mais perguntas do que respostas sobre esse “ano zero” da aceleração.
Impacto direto no bolso: biológicos de até R$ 500 mil/ano
Doença de Crohn e retocolite ulcerativa não têm cura. O tratamento de casos graves depende de medicamentos biológicos cujo custo anual pode ultrapassar meio milhão de reais por paciente. Multiplicado pela base crescente de usuários, o impacto orçamentário pressiona SUS e operadoras de planos de saúde simultaneamente.
Metade dos pacientes com Crohn precisará de cirurgia ao longo da vida. O diagnóstico tardio — média de 3 a 4 anos no Brasil — permite que a fibrose intestinal se instale, tornando os remédios ineficazes e empurrando o tratamento para o centro cirúrgico, muito mais caro e invasivo.
Mapa da doença: agronegócio e ultraprocessados no radar
A distribuição geográfica revela um padrão claro. São Paulo (278/100 mil), Paraná (251) e Santa Catarina (204) lideram as taxas. Norte e Nordeste registram números muito menores, sugerindo subnotificação por falta de especialistas e exames.
- Noroeste paulista e paranaense: maiores concentrações nacionais, regiões de forte agronegócio.
- Hipótese ambiental: exposição a agrotóxicos e poluição de queimadas de cana.
- Fator dieta: urbanização e consumo massivo de ultraprocessados empobrecem a microbiota intestinal.
Estudos com imigrantes asiáticos mostram que o risco equipara-se ao do país de destino em cerca de dez anos, confirmando o peso do ambiente sobre a genética (presente em apenas 30% dos casos).
A conta que chega em 2035
Modelos estatísticos projetam prevalência de 264 casos por 100 mil habitantes em 2035 — alta de 67% sobre 2025. A incidência pode chegar a 22,7 novos casos/100 mil, patamar europeu. O Brasil caminha para o perfil latino-americano (predomínio de retocolite), afastando-se do equilíbrio europeu entre os dois tipos de DII.
O pesquisador destaca: o volume de casos importa menos do que a natureza crônica da demanda. Pacientes jovens diagnosticados hoje exigirão acompanhamento multidisciplinar por décadas, colonoscopias regulares e gestão de medicamentos de alto custo.
O que observar daqui para frente
O levantamento cobre apenas o SUS. Pacientes de convênios que compram biológicos na rede pública entram na conta; os tratados integralmente na rede privada, não. O total real é, portanto, subestimado.
Três variáveis mudarão a trajetória: expansão da colonoscopia em regiões desassistidas (aumenta diagnósticos), aceleração da alimentação industrializada (aumenta incidência) e eventuais crises de abastecimento de exames (reduz notificações artificiais). Para gestores e investidores, a janela para estruturar redes de cuidado especializado e negociar preços de biológicos é agora — antes que a curva de 2018 se consolide como novo normal irreversível.
