Meio Ambiente

El Niño recorde: ONU tem só 20% da verba para evitar caos alimentar

Mapa mundial destaca 22 países em risco por El Niño recorde com déficit de financiamento da ONU para ajuda alimentar
ONU tem apenas 20% dos US$ 202 milhões necessários para prevenir crise alimentar em 22 países afetados pelo El Niño.

Das verbas necessárias para blindar 22 países contra o El Niño mais forte da história recente, apenas um quinto chegou ao caixa da ONU. O relógio corre contra 9 milhões de pessoas e a janela para ação preventiva está fechando.

O buraco no orçamento que assusta a FAO

Em junho, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a FAO pediram US$ 202 milhões (cerca de R$ 1,05 bilhão) para operações de antecipação. Até agora, entraram US$ 40 milhões (R$ 207,7 milhões) — exatos 20% da meta.

Rein Paulsen, diretor de Emergências da FAO, resume o dilema: os alertas antecipados são claros e a ciência sabe o que fazer, mas a falta de dinheiro trava a execução. “O financiamento é um desafio real que limita nossa capacidade de fazer o que sabemos que pode reduzir o impacto”, afirmou em Nairóbi.

Por que agir agora custa uma fração do socorro tardio

O valor solicitado é considerado baixo para padrões humanitários internacionais. Cada dólar investido em prevenção — sementes resistentes, drenagem, reservas estratégicas — evita gastos exponencialmente maiores com resgate, alimentação de emergência e reconstrução depois que a catástrofe se instala.

O pico do fenômeno está projetado para entre outubro e dezembro. Após essa janela, o custo da inação dispara.

A África no epicentro da tempestade perfeita

Mais da metade dos 22 países de alto risco concentra-se no continente africano. Os demais estão espalhados por Ásia, Pacífico, América Latina e Caribe.

O cenário é agravado por fatores pré-existentes:

  • Conflitos armados ativos;
  • Deslocamentos populacionais em massa;
  • Níveis crônicos de desnutrição infantil.

A Somália ilustra a gravidade: seis milhões de pessoas já enfrentam fome crítica e 700 mil foram deslocadas só em 2024 — metade delas fugindo da seca.

O que a ciência projeta para os próximos meses

Estudos divulgados na semana passada estimam 451 mil mortes adicionais no mundo até fevereiro de 2025, decorrentes do calor extremo associado ao El Niño. A África, segundo Paulsen, “sem dúvida será duramente atingida”.

Secas e inundações simultâneas devem colapsar safras e mercados locais, transformando insegurança alimentar em fome aguda generalizada.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditarão a escala da crise: a velocidade de reposição do fundo de US$ 202 milhões, a intensidade real das chuvas entre outubro e dezembro e a capacidade logística de chegar a zonas de conflito antes que as estradas sejam cortadas pela água. O gap de 80% no orçamento não é apenas um número contábil — é a diferença entre colheitas salvas e comunidades inteiras dependendo de ajuda aérea tardia.