A Smart Fit inaugura na próxima segunda-feira (28) sua primeira academia na Venezuela, marcando a entrada no 17º país da rede. A unidade ocupará 2.000 m² no Centro Comercial Chacaíto, em Caracas, mas o modelo escolhido revela mais sobre a estratégia do grupo do que a abertura em si.
Em vez de investimento direto, a operação será tocada por um franqueado local. A decisão levanta uma pergunta: por que a terceira maior rede de academias do mundo evita colocar capital próprio em um mercado de 29 milhões de habitantes?
O cálculo por trás da cautela
O CEO Diogo Corona explica que a empresa monitorava o cenário venezuelano há tempo. O gatilho veio com a desaceleração da inflação: 8,9% em agosto contra 19,9% em julho. Ainda assim, a entrada segue protocolo rígido.
“Entrar cedo tem valor. Mas entrar cedo sem disciplina de capital e sem o modelo correto, não”, resume o executivo. A frase sintetiza a regra que guiou a expansão da rede para 2.170 unidades em 17 países.
Como a Smart Fit decide entre próprio e franqueado
A estrutura de expansão não é aleatória. O grupo classifica os mercados em três perfis e aplica modelos distintos:
- Países menores: franquia como padrão
- Médios: 100% unidades próprias
- Grandes (Brasil, México, Argentina): misto, combinando ambos
Hoje, cerca de 80% das academias são próprias. A meta é manter esse percentual até o fim do ano. Franquias servem como “ferramenta de entrada” em novas geografias, não como motor de crescimento contínuo.
Por que a Venezuela e por que agora
Além da melhora macroeconômica, Corona cita proximidade cultural com os demais países latino-americanos onde a rede atua. Isso reduz riscos de execução — desde adequação de layout até gestão de equipe.
A Venezuela concentra sua população em poucas cidades altamente urbanizadas. Para um modelo HVLP (Alto Valor, Baixo Preço), com mensalidades a partir de R$ 49 no Brasil, a densidade urbana é ativo estratégico.
O teste marroquino e o foco que não muda
Este ano a Smart Fit estreou no Marrocos, primeiro país fora da América Latina. A escolha seguiu critérios semelhantes: estabilidade macro, baixa penetração de academias e espaço para crescer.
Mas a América Latina segue como prioridade absoluta. “Continuará sendo o principal foco de crescimento do grupo”, afirma Corona, que assumiu o comando em março com a missão de liderar a expansão geográfica.
Números que explicam a pressa
O primeiro semestre fechou com lucro líquido de R$ 411 milhões, alta de 24% sobre igual período do ano anterior. O parque de unidades saltou de 1.818 para 2.170 — expansão de 19% em 12 meses.
A receita líquida de 2023 atingiu R$ 7,24 bilhões. O IPO de julho de 2021 captou R$ 2,3 bilhões na B3 (ticker SMFT3), capitalizando a transição da Bio Ritmo (fundada em 1996 no segmento premium) para o modelo que hoje domina o mercado.
O que observar daqui para frente
A unidade de Caracas funcionará como laboratório. Se o franqueado local entregar resultados dentro dos parâmetros do grupo, a porta se abre para unidades próprias no médio prazo — seguindo o roteiro já testado em México, Colômbia e Chile.
Enquanto isso, o mercado brasileiro segue como motor principal. A pesquisa Datafolha de fevereiro confirmou a Smart Fit como a rede mais bem avaliada em São Paulo pela décima vez consecutiva, com destaque entre jovens de 16 a 25 anos. Esse público, que entra barato e consome serviços adicionais (bioimpedância, nutrição), sustenta a margem do modelo HVLP.
Para investidores e concorrentes, o sinal está dado: a expansão internacional continua, mas a disciplina de capital dita o ritmo. A próxima fronteira pode ser qualquer país latino-americano que combine urbanização, inflação controlada e penetração baixa de academias. A lista de candidatos é curta — e a Smart Fit já tem o manual de entrada pronto.
