O CEO da Mombak, Gabriel Haddad Silva, avisa: intervenção excessiva do governo no mercado regulado de carbono afasta capital estrangeiro e encarece o produto final. A empresa já destinou R$ 1,5 bilhão a reflorestamento na Amazônia, mas o futuro do setor depende de regras que ainda não existem.
O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões foi aprovado em 2024, mas segue sem regulamentação. Enquanto isso, a janela para captar bilhões em investimento internacional permanece aberta — por pouco tempo.
O que está em jogo para quem investe
Silva, ex-diretor financeiro do Nubank, resume a equação: mais intervenção estatal significa mais incerteza para investidores, preços maiores para compradores e desenvolvimento mais lento da indústria nacional. A Mombak planeja fechar 2024 com 27 mil hectares sob gestão no Pará, após a compra da 14ª fazenda. São quase 15 milhões de árvores plantadas em pastos degradados.
O mercado regulado exigirá que empresas acima do limite de emissões comprem créditos para compensar o excedente. Hoje, as transações ocorrem apenas no voluntário — um espaço pequeno, volátil e concentrado em big techs. “Não vamos conseguir captar bilhões dependendo só do voluntário”, afirma o executivo.
A polêmica dos tetos de exportação
Em julho, o governo abriu consulta pública para limitar a exportação de créditos a 50 milhões de toneladas de CO2e entre 2031 e 2035, com teto de 50% por projeto. A justificativa: evitar que certificados vendidos ao exterior deixem de contar para a meta climática brasileira.
O setor reagiu mal. Empresas argumentam que a medida tira competitividade do Brasil justamente quando o país tem vantagem comparativa — terra, clima e conhecimento para gerar créditos de remoção de alta qualidade a preços atrativos.
- Proposta do governo: 50 milhões de toneladas CO2e (2031-2035)
- Teto por projeto: 50% dos certificados gerados
- Reivindicação do setor: regras caso a caso, não tratamento único
Silva defende análise individualizada: “Entender quais soluções e empresas vão precisar de mais capital”. Hoje, 100% dos clientes da Mombak são estrangeiros — Google, McKinsey, Bain, Climeworks, McLaren Racing, Union Square Ventures, entre outros.
O marco que mudou o jogo
No último mês, a Mombak confirmou seus primeiros 21,7 mil créditos validados pela certificadora britânica Isometric. A entrega ocorreu dois anos antes do previsto. Foi a primeira vez que a Isometric emitiu certificados baseados em remoção natural, seguindo novo protocolo que exige espécies nativas.
Para Silva, o fato de o carbono já ter sido removido e validado atrai compradores cansados de promessas não cumpridas. “Muitas empresas assinaram contratos há anos e hoje não estão entregando. Existe demanda enorme por ativos sem risco de execução.”
Crise de confiança vira oportunidade
Denúncias de fraudes abalaram o mercado global nos últimos anos. O efeito colateral: compradores passaram a diferenciar qualidade. “Nos beneficiamos dessa crise porque os compradores buscam algo mais confiável”, diz o CEO.
A empresa prepara nova captação e deve anunciar clientes fora do setor de tecnologia até o fim do ano. Diversificar reduz dependência de big techs, que revisam investimentos diante de instabilidades geopolíticas.
O que observar daqui para frente
A regulamentação prevê etapas em 2027, 2029 e 2031. O próximo presidente terá papel decisivo na continuidade. Silva demonstra pragmatismo: “Já passamos por mudanças de governo no passado. Não acho que uma mudança agora vá impactar negativamente a importância do setor. O que precisamos é continuar o diálogo, seja com quem for.”
Enquanto o Brasil debate tetos, a demanda global por remoção certificada supera toda a oferta atual — somando a Mombak e todas as concorrentes. A “triste notícia para o planeta”, nas palavras do CEO, é que até o mercado voluntário, pequeno e concentrado, já é maior que a capacidade de entrega do setor.
Para empresários e investidores, o sinal está dado: quem esperar a regulamentação perfeita pode chegar tarde. O capital flui para onde a regras são claras e o risco de execução, mensurável.
