O Brasil reúne as duas peças mais difíceis do tabuleiro da inteligência artificial: energia abundante e receita em dólar. O que separa o país de uma fatia dos US$ 8 trilhões que devem irrigar o setor nos próximos cinco anos é, essencialmente, a regra do jogo.
A avaliação é de Bruno Barino, à frente da BlackRock Brasil, e coloca o foco onde o dinheiro costuma migrar primeiro: a segurança jurídica.
O ativo que ninguém consegue replicar
Data centers devoram eletricidade. Enquanto economias centrais travam para expandir matrizes limpas, o Brasil já opera com uma das redes mais renováveis do planeta. Essa vantagem não se compra — se herda ou se constrói em décadas.
Barino resume: “O Brasil tem a energia, que é o mais complexo de pegar em várias localidades”. Traduzindo para o investidor: o gargalo físico já está resolvido.
Hedge cambial embutido no modelo de negócio
Outro ponto que costuma assustar capital externo — a volatilidade do real — perde força nessa cadeia. Contratos de colocation, nuvem e inferência costumam ser precificados em dólar. Quem aporta no ativo real, portanto, carrega proteção cambial nativa.
Não é detalhe: reduz o custo de capital e melhora o retorno ajustado a risco.
Não é bolha, é “ramp-up”
A narrativa de superaquecimento não encontra respaldo nos números da gestora. O ciclo atual ainda é de deploy massivo de capital — GPUs, fibra, refrigeração, aquisição de terrenos. O retorno de produtividade, historicamente, chega com defasagem de 12 a 24 meses.
Quando chega, tende a ser estrutural.
O tamanho do prêmio para a economia brasileira
Um estudo do Reglab projeta quase R$ 1 trilhão de valor adicionado entre 2027 e 2030. Em termos de PIB, são 2,77% extras no período — média de 0,69 ponto percentual ao ano.
A decomposição do ganho revela onde o dinheiro efetivamente surge:
- 65% — produtividade do trabalho (pessoas produzindo mais com a mesma hora);
- 35% — incorporação tecnológica a máquinas, equipamentos e ativos.
O que trava a largada
O arco regulatório. Marco legal de IA, proteção de dados, licenciamento ambiental ágil para data centers e regras claras de soberania de dados formam o pacote que investidores leem antes de assinar o cheque.
Países que endereçaram esse combo — Cingapura, Emirados, Canadá — capturaram fluxo desproporcional ao tamanho de seus mercados internos.
O que observar daqui para frente
A tramitação do PL 2338/2023 no Congresso é o termômetro de curto prazo. Paralelamente, monitorar leilões de energia de reserva e a expansão de backbones de fibra no interior de São Paulo, Minas e Nordeste indica onde os data centers efetivamente pousarão. Quem mapear esses movimentos antecipa a alocação de capital — e o retorno — antes do consenso de mercado.
