O maior gestor de ativos do mundo classifica a Bolsa brasileira como “clear buy” — uma compra clara e direta. Samuel Vecht, portfolio manager da BlackRock especializado em emergentes, afirma que o mercado já precificou um cenário excessivamente negativo, abrindo espaço para retornos assimétricos caso haja até mesmo um ajuste modesto nas taxas de juros.
A tese não depende de um boom econômico. Segundo Vecht, a economia brasileira não precisa melhorar drasticamente para que as ações entreguem resultado; basta que o pessimismo atual dê lugar a uma percepção menos severa.
O gatilho que pode mudar tudo em 2027
O gestor aposta em um padrão histórico: governos costumam expandir gastos antes das eleições, mas o primeiro ano do novo mandato costuma trazer ajuste fiscal. Independentemente de quem vencer a disputa presidencial de 2026, Vecht projeta que a Selic poderá começar a cair em 2027.
Uma redução modesta nos juros, argumenta ele, teria impacto desproporcional sobre ativos que hoje negociam em múltiplos deprimidos. O raciocínio é simples: quando a taxa livre de risco cai, o valor presente dos fluxos de caixa futuros sobe — e empresas cíclicas domésticas são as maiores beneficiárias.
Valuation: o desconto que chama a atenção
Os números mostram o tamanho da oportunidade — e do ceticismo:
- Bancos: negociam a 5–7x lucro, contra 10–12x históricos
- Varejistas: em torno de 6x lucro, ante 18–25x no passado
- Brasil no índice EM: 4% de peso, sendo a 10ª maior economia global
- Múltiplos EM: dois desvios-padrão abaixo da média de 20 anos
Para Vecht, a argumentação de que “o Brasil sempre esteve barato” não se sustenta. Ele cita o caso da Coreia do Sul: em 2025, a Samsung era dada como morta; um ano depois, a ação quintuplicou. Percepções mudam rápido — e pequenas mudanças de narrativa movem preços com força.
China e Brasil: os dois pilares da estratégia
Os fundos geridos por Vecht mantêm overweight de 7 pontos percentuais no Brasil (11% do portfólio contra 4% do benchmark) e 15 pontos na China (35% vs. 20% de referência). A lógica para o gigante asiático é semelhante: bolsa nos níveis de 20 anos atrás, economia transformada, domínio em manufatura avançada e tecnologia.
O peso da China no índice de emergentes caiu para 19% — abaixo de Coreia (23%) e Taiwan (28%). Para o gestor, essa sub-representação é uma distorção que tende a se corrigir.
Setores domésticos: o abandono como oportunidade
Quando questionado sobre onde vê mais potencial, Vecht aponta para empresas voltadas à economia interna:
- Bancos e fintechs
- Varejo e consumo
- Utilities e concessões (com seletividade)
O argumento central: esses setores estão “abandonados”. Investidores assumiram que nada mudará — e é justamente quando o consenso é unânime que surpresas positivas geram os maiores ganhos.
O risco que ninguém está precificando
O maior perigo, na visão do gestor, não é fiscal nem político. É comportamental: uma geração inteira de investidores (quem tem cerca de 43 anos hoje) só conhece um mercado onde ações de tecnologia dos EUA superam tudo, o tempo todo.
Desde 2008, essa tese funcionou com inflação alta ou baixa, dólar forte ou fraco, republicanos ou democratas. Mas a teoria financeira ensina que concentração excessiva de capital em um tema reduz retornos futuros. Questionar a perpetuidade desse ciclo, diz Vecht, é o primeiro passo para capturar a rotação que virá.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis funcionarão como termômetros para validar — ou refutar — a tese da BlackRock:
- Trajetória fiscal em 2027: sinais concretos de contenção de despesas no primeiro ano do novo governo
- Curva de juros: antecipação de cortes da Selic pelo mercado futuro
- Fluxo estrangeiro: reversão da saída líquida de capital que marcou os últimos trimestres
Se dois desses três pilares se confirmarem, a assimetria de risco-retorno favorece quem já está posicionado. A BlackRock, com 11% do fundo UCITS no Brasil, já fez sua aposta. O mercado, agora, decide se segue — ou se espera a confirmação para entrar a preços mais altos.
