A ata do Copom confirma: o crédito bancário livre está desacelerando sob juros altos. Mas há um contrapeso silencioso que mantém a torneira aberta — e ele não depende do Banco Central.
Enquanto o BC aperta o cinto, o crédito direcionado avança a dois dígitos. O programa que deveria ser temporário virou permanente e carrega consigo um risco que quase ninguém discute.
O programa emergencial que não acabou
O Peac nasceu em junho de 2020 para socorrer pequenas e médias empresas na pandemia. A mecânica é simples: o banco empresta com recursos próprios, mas o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), gerido pelo BNDES, cobre parte do risco de calote.
Com a garantia pública, instituições financeiras aprovam operações que rejeitariam em condições normais. O programa atende hoje empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões.
O caráter emergencial expirou há tempos. Ainda assim, medidas provisórias e leis transformaram o Peac em política permanente, sem data para terminar.
Números que não mentem
Dados do Banco Central mostram que o crédito direcionado a pessoas jurídicas cresceu 18,5% em 12 meses até o início do ano. O ritmo não arrefeceu.
Esse avanço ocorre enquanto o crédito livre — aquele que reage diretamente à Selic — perde fôlego. Duas forças opostas atuando ao mesmo tempo.
- Crédito livre: sensível à taxa básica, reflete o aperto monetário
- Crédito direcionado: alimentado por garantias públicas, ignora o ciclo de juros
- Inadimplência: na categoria “outros créditos direcionados”, atinge o pico da série histórica
A esquizofrenia macroeconômica
O Banco Central eleva juros para conter demanda e inflação. Paralelamente, o governo expande crédito subsidiado que estimula a mesma demanda que o BC tenta frear.
Não há almoço grátis. Operações lastreadas em fundos garantidores também injetam poder de compra na economia. Pressionam preços. Afetam o PIB. A ideia de que só o crédito livre move a agulha inflacionária é uma ilusão contábil.
Quando a inadimplência sobe no segmento garantido, a conta acaba no balanço público — ou na próxima rodada de aportes do Tesouro.
O que muda após novembro
O calendário eleitoral adia o debate. Mas a matemática não espera urnas.
Nos próximos trimestres, três variáveis merecem monitoramento próximo: a curva de inadimplência nos fundos garantidores, o ritmo de novas contratações do Peac e a eventual necessidade de capitalização adicional do FGI.
Para quem toma decisões de investimento ou gestão de caixa, o sinal é claro: o custo de funding continuará pressionado enquanto duas políticas monetárias conviverem no mesmo território. A leitura atenta dos relatórios de crédito do BC — especialmente as tabelas de direcionado versus livre — virou ferramenta obrigatória de navegação.
