Tecnologia

Lula na ONU: ‘Não vendemos o PIX’ e o plano global para frear IAs

Lula discursa na tribuna da ONU com telão ao fundo exibindo logotipo da Assembleia Geral
Presidente Lula defende soberania do PIX e regulação global de IA na 81ª Assembleia Geral da ONU.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a tribuna da 81ª Assembleia Geral da ONU para traçar uma linha vermelha: o PIX não será privatizado e a inteligência artificial precisa de freios globais urgentes. O recado foi direto para multinacionais e potências que veem a infraestrutura digital brasileira como ativo a ser capturado. Mas a fala vai além de retórica diplomática e sinaliza movimentos regulatórios que impactam direto o caixa das empresas de tecnologia e o bolso do investidor.

O blindagem do PIX e a pressão externa

Lula foi taxativo ao classificar o sistema de pagamentos instantâneos como “infraestrutura pública e gratuita”. A menção a “pressões de multinacionais” ecoa o desconforto do governo com tentativas de intermediários financeiros de sobrepor camadas pagas ao modelo aberto do Banco Central.

Para o setor produtivo, a mensagem é clara: a gratuidade e a universalidade do PIX são tratados como política de Estado, não como favor de mercado. Qualquer modelo de negócio que dependa de cobranças escondidas sobre a rede do BC tende a enfrentar barreiras regulatórias crescentes.

O xadrez da Inteligência Artificial: governança com regras

O presidente condenou o que chamou de “neoliberalismo digital” conduzido por “tecno-oligarcas”. A proposta brasileira não é frear a inovação, mas impedir que o desenvolvimento e o controle da IA fiquem concentrados em meia dúzia de laboratórios no Vale do Silício ou em Pequim.

O Brasil defende uma arquitetura baseada em três pilares que já orientam discussões no G20 e na ONU:

  • Soberania algorítmica: decisões de alto impacto não podem ser caixas-pretas auditadas apenas por quem as cria.
  • Proteção de dados e direitos: responsabilidade civil objetiva para plataformas que lucram com externalidades negativas.
  • Distribuição de ganhos: a tecnologia deve reduzir a desigualdade entre nações, não aprofundar o abismo digital.

Essa agenda ganha tração concreta. Após a Declaração de Bletchley (2023) e a Cúpula de Paris (2025), a ONU instalou em Genebra o primeiro Diálogo Global sobre Governança de IA. O Brasil tem assento permanente nessas mesas e empurra para que o “Consenso de Brasília” vire referência para o Sul Global.

Big Techs e bets: o alvo da vez

O trecho mais duro do discurso mirou dois modelos de negócio simultâneos. Primeiro, as plataformas que “conhecem os riscos de seus produtos e transferem para as famílias a impossível tarefa de enfrentar os algoritmos”. Segundo, a “indústria bilionária das bets” que “transforma vício em lucro” e endivida lares brasileiros.

A correlação não é acidental. Ambas operam em ambientes de baixa fricção regulatória, escalam rápido via mobile e dependem de design comportamental agressivo. O governo sinaliza que a conta vai chegar via tributação diferenciada, exigências de duty of care (dever de cuidado) e, no caso das apostas, bloqueio de operadoras sem licença local.

O que observar daqui para frente

O calendário regulatório acelera nos próximos trimestres. O Marco Legal da IA (PL 2338/2023) tramita no Senado com relatoria favorável a regras baseadas em risco, espelhando o AI Act europeu, mas com cláusulas de soberania nacional. Paralelamente, o Banco Central deve endurecer a circular que veda cobranças indiretas sobre transações PIX, fechando brechas usadas por wallets e adquirentes.

Para quem aloca capital ou gere produtos digitais no Brasil, a leitura prática é única: a janela de “autoregulação voluntária” fechou. A conformidade antecipada com transparência algorítmica, proteção ao consumidor vulnerável e respeito à infraestrutura pública de pagamentos deixa de ser custo de compliance para virar condição de permanência no mercado.