A ata do Copom expôs uma contradição silenciosa: o crédito bancário total desacelera, mas a fatia direcionada pelo governo acelera 18,5% em 12 meses. O motor dessa expansão não é o mercado, tampouco a Selic. São os fundos garantidores — e o risco está subindo junto.
Enquanto o Banco Central aperta a torneira para conter a inflação, um programa “emergencial” da pandemia virou política permanente e injeta liquidez em empresas que, sem garantia pública, não teriam acesso a financiamento. A conta dessa esquizofrenia macroeconômica chega agora.
O mecanismo que blindou o crédito da Selic
O Programa Emergencial de Acesso a Crédito (Peac) nasceu em junho de 2020 para socorrer pequenas e médias empresas. A estrutura é simples: o banco empresta com dinheiro próprio, mas o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), gerido pelo BNDES, cobre parte do calote.
Com o risco transferido para o Tesouro, a instituição financeira aprova operações que rejeitaria em condições normais. O teto de faturamento para participar hoje é de R$ 300 milhões anuais — bem acima do perfil original de “pequeno negócio”.
- Origem: MP 975/2020, convertida em lei.
- Garantia: FGI/BNDES cobre parcela da inadimplência.
- Vigência: Indeterminada (era temporária, virou permanente).
- Crescimento do estoque (12m): 18,5% (dado do BC, início do ano).
Inadimplência recorde: o sinal de alerta
O Relatório de Estabilidade Financeira de junho de 2026 trouxe o dado que faltava: a modalidade “outros créditos direcionados”, onde o Peac pesa forte, atingiu o maior nível de inadimplência da série histórica. Não é coincidência.
Quando o custo de captação sobe com a Selic a 13,75%, mas a garantia pública mantém o spread artificialmente baixo, o incentivo ao risco moral aumenta. Empresas com geração de caixa fraca tomam crédito que não conseguiriam honrar sem o colchão do FGI.
Mas o efeito mais relevante aparece no agregado macroeconômico.
BC freia, governo acelera: a conta não fecha
A política monetária restritiva funciona reduzindo a demanda agregada via crédito mais caro. O crédito direcionado subsidiado faz o oposto: estimula a demanda injetando liquidez fora do balanço do BC. Ambos impactam inflação e PIB — a separação entre “crédito de mercado” e “crédito de governo” é contábil, não econômica.
Resultado: a autoridade monetária precisa subir mais os juros para neutralizar o estímulo fiscal disfarçado de crédito. O custo final recai sobre o tomador sem acesso a garantia pública — aquele que paga a Selic cheia.
O que observar daqui para frente
O calendário eleitoral adiou o debate estrutural. Após novembro, três variáveis definirão a trajetória:
- Revisão do Peac: limite de faturamento, percentual de cobertura do FGI e prazo de carência.
- Orçamento do FGI: necessidade de aporte novo do Tesouro para cobrir perdas crescentes.
- Reação do BC: se o crédito direcionado seguir acima de 15% ao ano, a Selic terminal pode surpreender para cima.
Para o investidor e o gestor de tesouraria, o recado é claro: o spread bancário médio continuará pressionado, a seletividade de crédito para grandes empresas sem garantia pública aumentará e a volatilidade da curva de juros curtos dependerá tanto da ata do Copom quanto da caneta do Ministério da Fazenda.
