O Banco Central sobe a Selic para frear a economia, mas o crédito dirigido pelo governo acelera 18,5% em 12 meses. Essa contradição não é um detalhe técnico — ela molda a inflação, o endividamento das empresas e o custo do dinheiro para quem produz.
A ata do Copom desta terça-feira (22) admite a desaceleração do crédito bancário livre. No mesmo parágrafo, porém, revela o contrapeso: operações com recursos direcionados, especialmente imobiliárias e corporativas lastreadas em fundos garantidores, mantêm expansão vigorosa.
O que são esses fundos garantidores que mudam o jogo
O protagonismo pertence ao FGI — Fundo Garantidor para Investimentos, administrado pelo BNDES. Ele cobre parte do risco de calote em empréstimos a empresas pequenas e médias. O banco empresta com capital próprio, mas a perda potencial fica limitada. Resultado: crédito flui para quem ficaria de fora no mercado livre.
O mecanismo nasceu no Peac — Programa Emergencial de Acesso a Crédito, lançado em junho de 2020. A pandemia acabou. O programa, não.
De emergencial a permanente: a mutação silenciosa
Successivas medidas provisórias e leis transformaram o caráter temporário em vigência indeterminada. Hoje, atende empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões. O “remédio” virou política estrutural sem debate público equivalente.
Os números confirmam a mudança de escala. No início do ano, nota do Banco Central apontava crescimento de 18,5% em 12 meses no crédito direcionado a pessoas jurídicas. O ritmo não arrefeceu.
O sinal de alerta que ninguém comenta
O Relatório de Estabilidade Financeira de junho mostra a inadimplência na categoria “outros créditos direcionados” — onde o Peac se encaixa — no pico da série histórica. A leitura direta: sem a garantia pública, parcela relevante desses tomadores não teria acesso a financiamento.
Isso não é necessariamente ruim. Políticas contracíclicas têm seu lugar. O problema é a ausência de coordenação.
Esquizofrenia macroeconômica: um pé no freio, outro no acelerador
Juros altos reduzem crédito, investimento e consumo — enfriam a demanda e a inflação. Crédito subsidiado e garantido pelo Tesouro expande a oferta de financiamento, aquece a atividade e pressiona preços. No Brasil atual, as duas forças atuam simultâneas e opostas.
Há quem suponha que apenas o crédito influenciado pela Selic afeta inflação. Equivoco. Todo impulso de demanda, venha de onde vier, repercute em preços. O governo injeta liquidez; o BC tenta drená-la. O custo dessa disputa é pago pelo contribuinte, via juros reais mais elevados por mais tempo.
- Selic: 13,75% ao ano (patamar restritivo)
- Crédito direcionado PJ: +18,5% em 12 meses
- Inadimplência Peac/FGI: recorde histórico
- Teto de faturamento Peac: R$ 300 milhões/ano
O que observar daqui para frente
O calendário eleitoral impõe silêncio sobre reformas estruturais até novembro. Depois, a discussão sobre o Peac, o FGI e a arquitetura do crédito direcionado será inevitável. Três pontos merecem monitoramento contínuo:
- Trajetória da inadimplência nos fundos garantidores — se subir mais, o Tesouro absorve a perda
- Eventual revisão de critérios de elegibilidade ou limites de alavancagem do FGI
- Impacto fiscal líquido: subsídio implícito versus arrecadação adicional de atividade gerada
Enquanto o debate não vem, a contradição persiste. Empresários e investidores precisam precificar dois regimes de crédito convivendo no mesmo balanço: o de mercado, caro e seletivo; o dirigido, abundante e blindado. Quem entende a dinâmica ganha vantagem. Quem ignora, paga a conta.
