Uma pesquisa da Zeom revela que o custo de vida para quem gasta acima de R$ 100 mil por mês acelerou em agosto, na direção oposta da deflação oficial. O índice de alto padrão subiu 0,34 ponto percentual no mês e acumula 8,53% em 12 meses. O abismo entre as duas realidades expõe um detalhe crítico: a cesta de consumo da elite não sente o alívio da conta de luz nem das passagens aéreas.
O que empurra a conta para cima
Dois itens explicam quase toda a pressão no orçamento de altíssima renda. A mensalidade escolar subiu 0,35% no mês, enquanto a moradia avançou 0,09%. Juntos, eles anulam qualquer respiro vindo de outros segmentos.
Na ponta contrária, três categorias ajudaram a frear uma alta ainda maior: veículos novos caíram 0,08%, saúde recuou 0,02% e restaurantes também cederam 0,02%. O efeito líquido, porém, permanece positivo e forte.
- Educação: +0,35% (principal vilão do mês)
- Moradia: +0,09%
- Veículos novos: -0,08%
- Saúde: -0,02%
- Restaurantes: -0,02%
Por que o IPCA mostra outro filme
O índice oficial do IBGE registrou deflação de 0,32% em agosto — a primeira queda em um ano e a mais intensa desde 2022. O motor foi a conta de luz, que despencou 7,63% por causa do bônus de Itaipu. Passagens aéreas (-13,17%), alimentos e combustíveis também puxaram para baixo.
Mas o IPCA mede a cesta média da população. Quem tem renda muito alta gasta pouco com energia relativa ao orçamento total e quase nada com passagens aéreas no dia a dia. Por isso, o alívio oficial não chega ao bolso de quem mantém padrão de consumo elevado.
A faixa intermediária também sente diferença
O índice Zeom que cobre rendas entre R$ 30 mil e R$ 100 mil mensais caiu 0,30 ponto percentual ante julho. Em 12 meses, a alta é de 5,82% — bem abaixo dos 8,53% do topo de pirâmide. Isso mostra que a inflação não é uma só: ela escala conforme a composição do gasto.
Quanto maior a fatia de serviços educacionais e imóveis de alto padrão no orçamento, menor a sensibilidade a choques de commodities ou tarifas administradas. O resultado é uma inflação própria, mais rígida e persistente.
O que observar daqui para frente
O calendário escolar costuma concentrar reajustes no início do ano, mas revisões de contratos e repasses de custo podem surgir a qualquer momento. No front imobiliário, aluguéis de alto padrão seguem indexados a indicadores que ainda carregam inércia inflacionária.
Para investidores e gestores de patrimônio, a lição é clara: planejar fluxo de caixa e proteção de poder de compra exige olhar para a inflação pessoal, não para a manchete do IPCA. A divergência entre índices tende a persistir enquanto a estrutura de consumo das classes mais altas permanecer concentrada em serviços intensivos em mão de obra e ativos reais.
