Publicações americanas atestam: a vantagem dos Estados Unidos em inteligência artificial praticamente sumiu. O feito colocaria a China no topo da corrida tecnológica, não fosse um detalhe incômodo — a segunda maior economia do mundo vive sua pior desaceleração em décadas.
Enquanto Pequim celebra a paridade em IA, indicadores internos piscam em vermelho. O desemprego entre jovens não estudantes atingiu 18,9% em agosto. Vendas de carros caíram 20% no primeiro semestre; o mercado imobiliário recuou 14%, aprofundando uma espiral deflacionária que assusta até conselheiros do banco central.
O dilema do recurso escasso
A raiz do problema está na alocação de capital. Estimativas do AI Index Report, de Stanford, mostram que fundos estatais injetaram US$ 184 bilhões em IA entre 2000 e 2023. Para os próximos cinco anos, a Bloomberg projeta mais US$ 295 bilhões apenas em data centers operados por estatais.
Cada yuan direcionado a essa infraestrutura é um yuan a menos para estimular consumo ou criar empregos diretos. “Quando você tem apenas essa quantidade de dinheiro, em que vai gastá-lo?”, questiona o economista Xu Chenggang, de Stanford. A tecnologia priorizada por Xi Jinping, argumentam críticos, tende a reduzir a demanda por mão de obra justamente onde ela mais faz falta.
Alertas internos ignorados</
Pouco antes da reunião do Politburo em julho, um coro de economistas próximos ao governo rompeu o silêncio. Li Daokui, ex-conselheiro do banco central, definiu a economia como “fria demais”. Huang Haizhou, também conselheiro, foi direto: “Um país preso à deflação não consegue alcançar inovação tecnológica sustentada”.
- Liu Shijin propôs elevar a pensão rural básica de US$ 30 para US$ 150 mensais para reativar o consumo.
- Li Daokui alertou que setores de alta tecnologia não sustentam a economia sozinhos.
- Huang Haizhou defendeu estimular inflação moderada e rentabilidade empresarial antes da corrida tech.
A resposta da cúpula foi fria. O Politburo reconheceu a necessidade de medidas “proativas”, mas manteve estímulos graduais e prometeu desenvolver uma “nova economia inteligente”. Pela primeira vez, veículos estatais não anunciaram meta de crescimento doméstico.
A métrica de sucesso de Xi
Em março, o líder chinês deu a chave de sua estratégia: “Não podemos olhar apenas para o crescimento do PIB”. Para Xi, o que importa é o “poderio” nacional e o avanço passo a passo de setores avançados. Um crescimento mais lento seria aceitável se a sofisticação tecnológica subisse.
O investimento em ativos fixos — infraestrutura, imóveis, máquinas — caiu 4,1% nos cinco primeiros meses do ano. Segundo Li Daokui, quedas semelhantes só ocorreram em 1961 (Grande Fome) e 1967 (Revolução Cultural). A aposta é que a modernização liderada pelo Estado libere valor futuro, mas o prazo de maturação é incerto.
O fantasma da demanda inexistente
No primeiro semestre, investimentos em serviços de informação — impulsionados por IA — saltaram 19,2%. A tecnologia pode, de fato, transformar a estrutura produtiva. Resta saber quem comprará o que for produzido.
O sociólogo Sun Liping traçou um paralelo incômodo com a União Soviética. No auge, a economia soviética equivalia a 70% da americana e superava os EUA em certas frentes científicas. Ainda assim, o modelo centralizado estagnou. “A China consegue produzir bens cada vez mais sofisticados. Mas quem na China terá condições de comprá-los?”, escreveu Sun. Sem compradores, não há lucro, renda nem emprego.
O que observar daqui para frente
O cenário coloca investidores e parceiros comerciais diante de uma aposta assimétrica. A liderança chinesa demonstrou capacidade de sustentar modelos insustentáveis por mais tempo que o esperado, mas o custo de oportunidade sobe a cada trimestre de deflação. Os sinais vitais a monitorar nos próximos meses são:
- Flexibilização real da política monetária para além do setor tech;
- Medidas concretas de transferência de renda às famílias (vouchers, pensões);
- Evolução do desemprego jovem versus volume de vagas criadas por data centers;
- Sinais de que a “nova economia inteligente” começa a gerar efeito multiplicador no varejo e imobiliário.
Se o consumo não reagir, a liderança em IA rischia se tornar um troféu caro numa vitrine vazia.
