Um relatório divulgado nesta segunda-feira (21) expõe uma conta que não fecha: a expansão global de energia renovável precisa mais que dobrar o ritmo atual para cumprir a promessa firmada na COP28. O mundo instalou 690 GW no último ano, mas a meta exige uma média anual de 1.200 GW até o final da década.
O documento, assinado pela Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA), Presidência da COP31 e Aliança Global de Energias Renováveis, acende um alerta vermelho para investidores e governos. A lacuna não está apenas na geração, mas na infraestrutura que a sustenta.
O tamanho do desafio em números
A capacidade instalada total atingiu 5,15 TW no fechamento do último período. Parece muito, mas representa menos da metade dos 11,2 TW necessários para honrar o compromisso de triplicar a capacidade até 2030.
Para visualizar a distância:
- Instalado em 2024: 690 GW (recorde histórico);
- Necessário por ano (2025-2030): ~1.200 GW;
- Déficit anual: mais de 500 GW.
Em outras palavras, o “recorde” de hoje seria considerado fracasso se repetido nos próximos cinco anos.
O gargalo invisível: redes e eficiência
Francesco La Camera, diretor-geral da IRENA, resume o dilema: a geração até consegue acompanhar, mas a eficiência energética travou em 2% de melhoria (a meta é 4%) e a rede elétrica não acompanhou a velocidade das usinas solares e eólicas.
O resultado é um estrangulamento físico. Electrons gerados no meio do deserto ou offshore não chegam aos centros de consumo sem linhas de transmissão e armazenamento. O relatório estima que são necessários quase US$ 1 trilhão por ano em investimento de rede entre 2026 e 2030. Em 2024, o aporte ficou em US$ 525 bilhões — menos da metade do required.
O que os líderes do setor estão exigindo
Ben Backwell, presidente da Aliança Global de Energias Renováveis, não usou meias palavras: governos precisam tratar renováveis como “prioridade econômica nacional”. A receita técnica envolve três pilares simultâneos:
- Expansão agressiva das redes de transmissão e distribuição;
- Implantação massiva de sistemas de armazenamento (baterias e hidrelétricas reversíveis);
- Eletrificação forçada de residências, transporte e indústria.
Sem esse tripé, a capacidade instalada vira “energia encalhada” — um ativo improdutivo no balanço das empresas e dos países.
O radar da COP29 na Turquia
As negociações de novembro em Baku devem mudar o foco da “capacidade instalada” para “eletrificação real da economia”. A meta em discussão é fazer a eletricidade responder por 35% do consumo final de energia global até 2035.
Para o empresariado, o sinal é claro: a próxima onda de valor não está apenas em construir parques solares, mas em resolver o “último quilômetro” da energia — armazenamento, gestão de demanda e redes inteligentes.
O que observar daqui para frente
Fique atento aos pacotes de estímulo verde das grandes economias (EUA, UE, China) nos próximos trimestres. A aceleração do CAPEX em transmissão e storage será o termômetro real de se a meta de 2030 sai do papel ou vira mais uma promessa climática não cumprida. Quem antecipar a alocação de capital nessa infraestrutura “não sexy” tende a capturar o upside quando o gargalo finalmente se romper.
