Metade dos jovens brasileiros planeja comprar um imóvel nos próximos anos, mas apenas 14% enxergam a aquisição como forma de multiplicar patrimônio. O dado, inédito, expõe uma fratura entre desejo e realidade financeira que redefine o mercado imobiliário.
O abismo não é de vontade — é de capital. Entre juros elevados, renda estagnada e preços que correm à frente da inflação há duas décadas, a geração nascida entre 1997 e 2012 transformou a casa própria em meta de longo prazo, quase utopia.
O retrato numérico da desconexão
O estudo Retratos do Morar 2025, do Grupo Quinto Andar com Ipsos-Ipec, mapeou o comportamento de diferentes faixas etárias. O resultado surpreende: a Geração Z lidera a intenção de compra, mas é a que menos associa imóvel a investimento.
- 50% pretendem adquirir imóvel nos próximos anos
- 14% veem a compra como investimento (menor índice entre todas as idades)
- 86% encaram o imóvel apenas como moradia ou objetivo de vida
“A mudança está na percepção de acesso”, resume Carol Velloso, advogada e especialista em finanças comportamentais. “Quando o jovem pensa em imóvel como investimento, esbarra em três barreiras: capital inicial alto, entrada expressiva e financiamento de longo prazo com juros elevados.”
O psicólogo que não vê entrada em menos de dez anos
Henrique Pasquin, 26 anos, psicólogo, ilustra o dilema. Ele considera imóvel “um investimento interessante e resiliente”, mas admite: “Não consigo me ver tendo aporte para engajar nessa etapa em menos de uma década.”
A insegurança macroeconômica — nacional e global — o empurrou para ativos líquidos e conservadores: CDBs, reserva de emergência, aluguel mantido por mais tempo. “Sinto uma insegurança significativa e esse receio me leva a um aporte muito mais conservador do que eu gostaria.”
O caso não é isolado. Após crises sucessivas, inclusive a pandemia, a geração internalizou a instabilidade como padrão. Adiar conquistas virou estratégia de sobrevivência.
O descompasso de 25 anos em um gráfico
Matheus Villela, analista da Aware Investments, coloca números na sensação: “Hoje, mesmo entre os jovens mais bem remunerados, comprar a casa própria exige um esforço proporcionalmente muito maior do que no início dos anos 2000.”
Um estudo da FGV sobre lançamentos na Grande São Paulo mostra a trajetória. Em 2000, um apartamento de 105 m² custava, em valores corrigidos, R$ 194 mil. Seis anos depois, o mesmo perfil saltou para R$ 353 mil — alta real superior a 80%.
O descolamento não parou. Em dezembro de 2025, o Índice FipeZAP registrou preço médio de R$ 9.600 por metro quadrado no país. No mesmo período, o rendimento médio real habitual dos ocupados era de R$ 3.600.
“Em capitais como São Paulo e Rio, o metro quadrado é ainda mais caro, criando um ciclo: ganhar bem quase sempre implica morar onde comprar é mais difícil”, explica Villela.
Aposentadoria virou prioridade antes da chave
Se a casa própria escorregou para o horizonte longo, a previdência assumiu o centro do planejamento. Pesquisa da Anbima com Datafolha revela: 66% da Geração Z pretende poupar para aposentadoria, mas apenas 12% já começou.
Pedro Fonseca, 22 anos, estudante de Economia na UFRJ, resume a lógica: “Meu pensamento é fazer o patrimônio crescer aos poucos, que me permita no futuro viver de dividendos ou saques. Recebo uma pensão para me manter no Rio, e o que sobra, invisto.”
Sua carteira mistura ações de grandes pagadoras de proventos, Tesouro Direto e Fundos Imobiliários — este último, “mais prático de aprender, acompanhar e ter dividendos mensais”. Mesmo com apetite teórico para risco, a alocação ficou conservadora. “Acabei montando a carteira de forma mais previdenciária mesmo.”
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a intenção de compra da Geração Z se converte em negócios reais nos próximos cinco anos: a trajetória da Selic e seu reflexo no crédito imobiliário, a evolução da renda real frente à inflação de imóveis, e a maturidade do mercado de FIIs como porta de entrada fracionada no setor.
Enquanto o financiamento seguir exigindo entrada de 20% a 30% e prazos de 30 a 35 anos com juros reais positivos, a equação continuará favorecendo ativos líquidos e de aporte inicial baixo. O imóvel, para esta geração, deixou de ser degrau obrigatório de riqueza — virou meta opcional, a ser atacada só após a blindagem financeira estar de pé.
