Um arquiteto transformou luto em conteúdo viral ao pedalar pelas ruas de Santos com óculos equipados com câmera, somando mais de 1 milhão de visualizações em menos de 30 dias. Rafael Mlatisoma de Andrade não planejava ser influenciador — queria apenas “espairecer a cabeça” após a internação da cadela Madalena. O que começou como fuga virou fenômeno.
Mas como um passeio sem roteiro conquistou 25 mil seguidores e chamou atenção de marcas em tempo recorde?
Da bicicleta ao algoritmo: a origem improvável
Andrade trabalhava no restaurante da família quando comprou óculos com câmera embutida. A ideia era simples: registrar pedaladas noturnas para distrair a mente enquanto a cachorra lutava pela vida na clínica veterinária. “Quando eu saio para pedalar, minha cabeça espairece, meus pensamentos ruins somem”, relatou.
A perda de Madalena, dias depois, deu novo peso às gravações. A cadela — descrita como “parceira e fiel escudeira” — era presença constante na rotina dele. O luto transformou os vídeos em homenagem involuntária à cidade que ele redescobria a cada volta no pedal.
Conteúdo espontâneo, autoridade técnica
Sem script, sem produção, sem meta de visualizações. O arquiteto apenas contava o que sabia: histórias de edificações, nomes de ruas, detalhes de um prédio de 260 anos que surge no caminho. A formação em Arquitetura e Urbanismo e o trabalho prévio com patrimônio histórico deram densidade ao que parecia conversa de amigo.
Para aprofundar os temas, passou a consultar livros e acervos digitais da cidade. O resultado: vídeos que misturam lazer, memória afetiva e aula de história urbana — tudo em primeira pessoa, do guidão da bicicleta.
Números que explicam o boom
- 1 milhão+ visualizações acumuladas no primeiro mês
- 25 mil novos seguidores no Instagram
- Zero investimento em anúncios ou equipe de edição
- Diversas propostas comerciais de marcas após o crescimento orgânico
A audiência não se limita a santistas. Comentários chegam de brasileiros em vários estados e de expatriados há décadas — gente que usa os vídeos para “matar a saudade” e se reconhecer nas ruas filmadas.
Uma relação de décadas com a cidade
Nascido em Santos, Andrade viveu a infância em Brasília. Voltou definitivo em 2007, aos 18 anos, para morar com a avó e cursar faculdade. “Eu brinco que minha diversão era pegar a bicicleta e me perder propositalmente pela cidade”, contou. Esse conhecimento íntimo — bairros, quadras, fachadas anônimas — virou diferencial competitivo no TikTok e no Reels.
O que observar daqui para frente
Andrade afirma não ter metas nem pretensão de carreira como criador. Ainda avalia com cautela as parcerias que surgiram. Enquanto isso, a comunidade em torno do perfil cresce: pessoas interessadas em arquitetura, história local e mobilidade ativa. Para empreendedores e comunicadores, o caso reforça uma tese: autoridade genuína + formato nativo + constância orgânica ainda vencem produções milionárias sem alma. O próximo capítulo depende de como ele vai dosar exposição e essência — sem perder o guidão da mão.
