Brasileiros que migraram para títulos públicos americanos de longo prazo em busca de proteção viram o capital encolher até 9% ao ano em reais nos últimos cinco anos. A aposta na “segurança” do dólar e dos Treasuries ignorou um detalhe crucial: risco de crédito baixo não elimina risco de mercado.
Os números não mentem — e assustam quem alongou prazos apostando na queda dos juros americanos. Mas o cenário reserva nuances que mudam a conta dependendo do horizonte.
O espelho retrovisor: cinco anos de destruição de valor
Quem comprou Treasuries de 10 anos há cinco anos acumula perda real de aproximadamente 1,7% ao ano em dólares. Nos papéis acima de 20 anos, o tombo chega a 8% anuais. Com a desvalorização do dólar de 1,2% ao ano frente ao real no período, o investidor brasileiro amargou retornos de -2,9% e -9,1% ao ano, respectivamente.
Para comparação, o CDI rendeu 12,5% ao ano no mesmo intervalo. O IRF-M (prefixados brasileiros) entregou 10,8%. Até o IMA-B (atrelados ao IPCA), alvo de críticas recentes, superou os Treasuries longos com 8,4% anuais.
Quando o horizonte estica para dez anos, a conta muda de figura
Ampliando a janela, o dólar valorizou 4,7% ao ano. Isso amenizou o estrago: Treasuries de 10 anos renderam cerca de 5% ao ano em reais, enquanto os de 20+ anos ficaram em modestos 2,1%. Ainda assim, ambos ficaram aquém do CDI (9,3%), do IRF-M (9,8%) e do IMA-B (9,6%) no período.
- CDI 10 anos: 9,3% a.a.
- IRF-M 10 anos: 9,8% a.a.
- IMA-B 10 anos: 9,6% a.a.
- Treasury 10y (BRL): ~5% a.a.
- Treasury 20y+ (BRL): ~2,1% a.a.
O custo de oportunidade fica evidente quando se olha para o que deixou de ser ganho no mercado local.
A armadilha da marcação a mercado pegou até os mais experientes
A tese parecia irrefutável: o Fed já havia subido os juros, e quando começasse a cortar, os cupons pagariam a conta enquanto os preços dos títulos subiriam. A realidade foi outra. Mesmo após o início dos cortes, as taxas longas voltaram a subir. Em setembro, Treasuries acima de 20 anos caíram mais de 1,5% em um único mês.
Quem alongou duration apostando na queda das taxas levou a segunda pancada seguida. A marcação a mercado não perdoa erro de timing.
Por que juros longos têm vida própria — e ignoram o Fed
A taxa de um Treasury de 30 anos não depende só da decisão do banco central. Expectativas de inflação de longo prazo, trajetória fiscal, volume de emissão de dívida e prêmio de prazo ditam o preço. Quanto maior o vencimento, mais sensível o título a cada ponto-base de mudança nessas variáveis.
Baixo risco de calote não significa baixa volatilidade. O investidor comprou proteção contra default e recebeu exposição a risco de duração extrema.
Diversificar não é sinônimo de se proteger — e a diferença custa caro
Manter parte do patrimônio no exterior segue fazendo sentido estrutural. O erro está em confundir geografia com blindagem. Um ativo “livre de risco” em crédito pode ser dos mais arriscados em mercado quando o prazo é longo.
Antes de buscar refúgio lá fora, a pergunta certa não é “o que é mais seguro?”, mas “quanto risco de mercado estou disposto a carregar e qual o custo de oportunidade de não estar no Brasil?”.
O que observar daqui para frente
O ciclo de cortes nos EUA começou, mas a inclinação da curva ainda reflete prêmios de termo elevados e incerteza fiscal. Se a inflação americana reacelerar ou o déficit público surpreender, as taxas longas podem subir mais — e quem alongou prazos voltará a sentir na pele. Por outro lado, se o soft landing se confirmar e a curva achatar, há espaço para recuperação nos preços. O monitoramento do termo premium e das emissões do Tesouro americano será decisivo nos próximos trimestres. Quem já está posicionado deve revisar duration; quem ainda vai entrar, prefira prazos curtos a médios enquanto a névoa não dissipa.
