Os principais presidenciáveis ocuparam palanques em quatro estados estratégicos neste sábado (19) e desenharam cenários radicalmente diferentes para a economia e a segurança pública. As propostas vão da extinção do mercado de apostas online à redução drástica de juros e a um novo modelo prisional. O que está em jogo, porém, vai muito além do discurso de palanque.
O ataque frontal ao mercado de apostas
Em Florianópolis, Lula (PT) subiu o tom contra as bets. O candidato à reeleição classificou as apostas online como um mecanismo de transferência de renda das famílias mais pobres para grandes corporações, citando endividamento recorde e perdas patrimoniais. A promessa é de extinção total, não apenas regulação.
O movimento mexe com uma cadeia bilionária. Clubes de futebol, emissoras de TV e agências de publicidade dependem hoje desse fluxo de caixa. Lula rebateu a ameaça de “fim do futebol” citando títulos mundiais de São Paulo, Flamengo, Corinthians, Internacional, Grêmio e Seleção conquistados sem patrocínio de bets. Para o investidor, o sinal é claro: o risco regulatório no setor de entretenimento e mídia esportiva atingiu o nível máximo.
O modelo catarinense e a força de trabalho invisível
Enquanto isso, em Joinville, Flávio Bolsonaro (PL) elegeu Santa Catarina como vitrine de gestão. O foco não foi tributação, mas ressocialização lucrativa. A proposta é nacionalizar o programa catarinense que coloca presos de menor periculosidade para trabalhar em parceria com empresas privadas.
- Detentos trabalham, pagam pela estadia e saem com profissão.
- Meta declarada: reduzir a taxa de reincidência criminal.
- Empresas ganham mão de obra custeada pelo sistema prisional.
A ideia atrai setores com déficit de mão de obra, mas esbarra em debates jurídicos sobre trabalho forçado e concorrência desleal com o mercado livre. O efeito imediato é a sinalização de “lei e ordem” com viés econômico para o eleitorado conservador.
Zema, o “custo-Brasil” e a taxa de 25%
Em Contagem (MG), Romeu Zema (Novo) mirou no coração do empresariado: a burocracia e o custo de capital. A receita mineira — “abre a lanchonete, o Estado fiscaliza depois” — é a bandeira para desburocratizar o alvará de funcionamento em todo o país.
O dado mais duro veio na comparação de juros: 25% ao ano no Brasil contra 6% a 7% no exterior. Zema vincula a taxa Selic alta à incapacidade do microempreendedor de acessar crédito para crescer. A promessa implícita é de uma política monetária mais frouxa ou de choque de oferta para derrubar o spread bancário. Para o mercado financeiro, a fala reforça a pressão por responsabilidade fiscal como pré-condição para queda de juros estrutural.
Saúde como ativo de produtividade e o seguro do agro
Ronaldo Caiado (PSD) usou Barretos (SP) para transformar saúde em pauta de eficiência. A “via rápida do câncer” no SUS — triagem por gravidade para evitar diagnóstico tardio — mira a redução de custos hospitalares de alta complexidade e a manutenção da força de trabalho ativa.
No agronegócio, o governador de Goiás atendeu ao pleito do setor: seguro rural plurianual e pacificação no campo. A volatilidade climática e fundiária é hoje o maior risco de balanço para tradings e cooperativas. A sinalização de previsibilidade regulatória é o principal ativo de campanha junto ao PIB do interior.
As bordas que movem o centro
Candidatos de menor votação ditaram pautas que pressionam os líderes. No Rio, Samara Martins (UP) e Hertz Dias (PSTU) defenderam aumento de 100% nos salários, fim da escala 6×1 e redução da jornada. Renan Santos (Missão) propôs militarização do país e investigação de políticos ligados ao crime organizado.
Mesmo sem chance real de vitória, essas propostas forçam o debate sobre custo trabalhista e segurança pública para o centro do programa dos favoritos. Ignorá-las custa votos nas periferias e no eleitorado de ordem.
O que observar daqui para a frente
A campanha entra na fase de definição de coalizões no Congresso. Três variáveis decidirão a viabilidade do que foi dito no fim de semana: a composição das bancadas eleitas em outubro, a reação do mercado de crédito às falas sobre juros e bets, e a disposição do STF em validar eventuais decretos de extinção de setores regulados. O empresário que monitorar esses três vetores antecipa o cenário regulatório de 2027 com meses de vantagem.
