Economia

O segredo que ninguém conta: Títulos longos dos EUA derreteram

Gráfico comparativo mostra rentabilidade negativa de Treasuries de 10 anos versus CDI e títulos brasileiros
Títulos longos dos EUA renderam -1,7% ao ano nos últimos 5 anos, enquanto CDI entregou 12,5%

Muitos brasileiros que migraram recursos para títulos públicos americanos de longo prazo em busca de segurança viram o capital encolher nos últimos cinco anos. A promessa de moeda forte e baixo risco de crédito não impediu perdas expressivas. O que explica esse resultado surpreendente?

O choque dos números

Nos últimos cinco anos, o CDI rendeu 12,5% ao ano, enquanto o IRF-M (prefixados) entregou 10,8% e o IMA-B (IPCA+) 8,4%. No mesmo período, Treasuries de 10 anos perderam 1,7% ao ano em dólares e os de 20 anos caíram 8% ao ano. Como o dólar recuou 1,2% ao ano frente ao real, o investidor brasileiro amargou aproximadamente -2,9% e -9,1% ao ano, respectivamente.

Em uma janela de dez anos, o câmbio ajudou: o dólar subiu 4,7% ao ano. Ainda assim, um Treasury de 10 anos rendeu cerca de 5% ao ano em reais e o de 20 anos apenas 2,1% — bem abaixo dos índices brasileiros de renda fixa no mesmo horizonte.

Por que a aposta falhou

A tese era simples: juros americanos já haviam subido e, ao caírem, os títulos longos se valorizariam. O problema é que acertar a direção da taxa básica não basta. Mesmo após o Fed iniciar cortes, os juros longos voltaram a subir. Em setembro, papéis acima de 20 anos se desvalorizaram mais de 1,5%.

Isso ocorre porque a taxa de um Treasury longo não depende só da decisão do Fed. Expectativas de inflação, situação fiscal e volume de dívida emitida também pesam. Quanto maior o prazo, maior a sensibilidade do preço às taxas. Baixo risco de crédito não significa baixo risco de mercado.

O custo de oportunidade no Brasil

Diversificar internacionalmente continua fazendo sentido, mas não se deve confundir diversificação com proteção. Veja a comparação direta de rentabilidades anuais nos últimos cinco anos:

  • CDI: +12,5%
  • IRF-M (prefixados BR): +10,8%
  • IMA-B (IPCA+ BR): +8,4%
  • Treasury 10 anos (em reais): -2,9%
  • Treasury 20+ anos (em reais): -9,1%

O investidor que alongou prazos no exterior deixou de ganhar no mercado doméstico e ainda assumiu volatilidade elevada.

O que observar daqui para frente

O cenário fiscal americano segue pressionado, com emissões recordes de dívida longa. Isso mantém os juros de longo prazo voláteis. No Brasil, a curva de juros reais oferece prêmios atrativos para prazos médios. Antes de buscar abrigo no exterior, pergunte-se: quanto risco de mercado estou disposto a aceitar e quanto estou abrindo mão de rentabilidade local? A resposta pode evitar que a proteção vire prejuízo.