As maiores empresas de tecnologia do mundo moveram até US$ 300 bilhões (R$ 1,54 trilhão) em compromissos financeiros para fora de seus balanços nos últimos 12 meses. A manobra usa garantias de valor residual — contratos que prometem cobrir a diferença se data centers ou chips valerem menos que o esperado no futuro.
O mecanismo permite financiar a infraestrutura de inteligência artificial sem registrar o passivo integralmente. Mas a conta chega em outro formato: agências de risco já ajustam a alavancagem real dessas companhias.
Como funciona a engenharia que mantém a dívida invisível
Em vez de emitir dívida direta, as big techs criam veículos de propósito específico (SPEs) que compram os ativos — servidores, chips, terrenos. Os bancos financiam esses veículos. A garantia da controladora cobre apenas a diferença entre o valor de revenda do ativo e um piso contratual.
Na prática, a exposição contábil cai drasticamente. Um projeto de US$ 20 bilhões pode gerar ajuste de apenas US$ 5 bilhões nos índices de alavancagem, segundo a S&P Global. O segredo está na regra contábil: garantias de valor residual recebem tratamento mais brando que fianças tradicionais.
Os três gigantes que já adotaram o modelo
- Meta: US$ 28 bilhões para o data center Hyperion (2 GW, Louisiana) e estrutura similar em El Paso (1 GW).
- Broadcom: US$ 29 bilhões em junho para chips alugados à Anthropic; prevê mais 5 GW para a mesma cliente e 1,3 GW para OpenAI.
- Nvidia: US$ 105 bilhões para complexo da SB Energy/SoftBank em Ohio (OpenAI) + programa de até 25% em veículo de US$ 500 bilhões liderado por Goldman Sachs.
Somados, os sete maiores hiperescaladores e fabricantes de chips acumulam US$ 3,1 trilhões (R$ 15,95 trilhões) em compromissos extrapatrimoniais, pela conta do Morgan Stanley.
Por que os bancos aceitam taxas tão baixas
As dívidas desses veículos saem a apenas 1% a 1,5% acima do custo de funding da garantidora. Para os credores, a promessa de cobertura residual elimina o maior medo: a obsolescência tecnológica tornar os ativos sem valor de revenda.
Richard Myers, do Morgan Stanley, explica que o ativo passa por processo competitivo de venda antes de qualquer acionamento da garantia. O valor apurado reduz a exposição real. “Na maior parte do tempo, a diferença fica próxima de zero”, confirma Pierre Georges, da S&P.
O risco que não aparece no demonstrativo
Doug Colandrea, da KBRA, alerta: “Houve expansão significativa da exposição extrapatrimonial. Isso acrescenta complexidade altíssima aos perfis de crédito”. Tim Musial, da CIBC, resume a preocupação do mercado: “Todos estão numa corrida por capacidade computacional. Os compromissos futuros assustam”.
Se a demanda por IA decepcionar — por uso abaixo do esperado, excesso de oferta ou modelos de negócio insustentáveis —, as garantias serão acionadas. A Meta, por exemplo, já viu a S&P aplicar “redução grande” no valor do Hyperion, mas ainda acima da dívida, sem ajuste de alavancagem.
O que observar nos próximos trimestres
Três sinais dirão se a estrutura aguenta: (1) entrada em operação dos data centers prometidos para 2028-2030; (2) taxas de ocupação e receita por GW instalado; (3) revisões das agências de rating nos testes de estresse. O primeiro vencimento relevante da Nvidia ocorre em 2028, quando começam os arrendamentos da OpenAI em Ohio. Até lá, o passivo fica fora do balanço — mas não fora do risco.
