Uma fábrica em Vinhedo, interior de São Paulo, começa a produzir em escala industrial curativos biológicos feitos de pele de tilápia — tecnologia 100% nacional que pode mudar o padrão de atendimento a queimados no SUS. O produto já tem registro na Anvisa e custa uma fração dos equivalentes importados. Mas a verdadeira virada está no que vem depois da linha de produção.
Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) passaram uma década transformando o que era resíduo da piscicultura em biomaterial de alto valor. A pele do peixe, rica em colágeno tipo I e com estrutura semelhante à derme humana, acelera a cicatrização, reduz dor e dispensa trocas frequentes. Agora, a desafio deixa de ser científico e passa a ser logístico: como levar isso a cada unidade de queimados do país?
Do laboratório para a esteira: números da nova fábrica
A unidade inaugurada em 2024 tem capacidade inicial de processar 300 mil unidades por ano. Cada curativo passa por rigoroso controle de qualidade: desinfecção, remoção de células e escamas, liofilização e esterilização por radiação gama. O resultado é uma membrana fina, transparente e pronta para uso — válida por até dois anos em temperatura ambiente.
Para ter ideia da escala: o Brasil registra cerca de 1 milhão de atendimentos por queimaduras anualmente, segundo o Ministério da Saúde. Destes, cerca de 200 mil exigem internação. A meta da fábrica, em parceria com o Ministério da Saúde, é abastecer prioritariamente a rede pública, começando pelos 36 centros de referência em queimados espalhados pelo território nacional.
Por que a pele de tilápia supera gaze e prata?
A comparação direta revela vantagens clínicas e econômicas:
- Menor dor: o curativo adere ao leito da ferida sem grudar na cama de granulação, eliminando o trauma da troca;
- Menos trocas: permanece no local por até 10 dias, contra trocas diárias de gaze com sulfadiazina de prata;
- Custo menor: estimativa de R$ 40 a R$ 60 por unidade, frente a R$ 300 a R$ 800 de matrizes dérmicas importadas;
- Disponibilidade: matéria-prima abundante no Brasil — quarto maior produtor mundial de tilápia, com 570 mil toneladas/ano.
O efeito nos pequenos e médios hospitais
Grandes centros como o Hospital das Clínicas de São Paulo ou o Instituto Dr. José Frota em Fortaleza já testam o produto em protocolos clínicos. Mas o impacto real aparece nas cidades médias, onde não há banco de pele humana nem orçamento para biomateriais importados. Nessas unidades, o curativo de tilápia pode ser a diferença entre encaminhar o paciente para a capital — gastando com UTI aérea e leitos — ou tratá-lo na origem.
Estudo piloto em Fortaleza mostrou redução de 30% no tempo de internação para queimaduras de segundo grau profundo. Menos dias de leito significa fila andando, custos caindo e, sobretudo, menos sequelas físicas e psicológicas para o paciente.
Barreiras que ainda precisam cair
Apesar do registro na Anvisa e da fábrica operando, três gargalos travam a expansão imediata. Primeiro: a padronização do protocolo clínico no SUS — cada secretaria estadual define seu fluxo de compra. Segundo: a capacitação de equipes de enfermagem para manejo do novo material, que difere da rotina de gazes. Terceiro: a rastreabilidade do pescado, exigência sanitária que exige integração entre frigoríficos certificados e a indústria farmacêutica.
O Ministério da Saúde já publicou nota técnica recomendando o uso, mas a inclusão na tabela SIGTAP — que define o que o SUS paga — ainda tramita. Sem o código de procedimento, gestores hospitalares ficam inseguros para comprar.
O que observar daqui para frente
Nos próximos 12 meses, três marcos dirão se a revolução vira rotina: a publicação do protocolo clínico nacional unificado, a entrada do curativo na tabela de remuneração do SUS e a ampliação da fábrica para 1 milhão de unidades/ano — meta anunciada para 2025. Se os três acontecerem, o Brasil deixa de importar tecnologia de pele suína ou equina e passa a exportar a solução de tilápia para a América Latina e África.
Enquanto isso, cada paciente que recebe o curativo no lugar da gaze ganha dias sem dor, cicatrizes melhores e a chance de voltar para casa mais cedo. A ciência já fez a parte dela. Agora, a engrenagem pública precisa girar na mesma velocidade.
