Economia

O relatório que expõe o Fed e acirra a guerra de Trump contra o banco central…

Relatório independente expõe falhas de Michael Barr na supervisão do Silicon Valley Bank antes da quebra de 2023
Casa Branca usa relatório do Fed para acusar vice-presidente de supervisão por falha no Silicon Valley Bank

A Casa Branca usou um relatório independente para acusar formalmente o vice-presidente de supervisão do Federal Reserve, Michael Barr, de falhar no dever de vigiar o Silicon Valley Bank antes da quebra de 2023. O documento, encomendado pela atual gestão do Fed, contraria a narrativa oficial anterior e abre caminho para uma reforma profunda nas regras bancárias. O embate coloca em xeque a autonomia da instituição justamente quando o mercado debate os rumos dos juros americanos.

O que o documento revela sobre a falha de 2023

O estudo do Starling Advisory Group, divulgado na sexta-feira (18), aponta que a supervisão do Fed sofria de uma “cultura de aversão ao risco” paralisante. Examinadores sabiam das vulnerabilidades do SVB — como a concentração de depósitos não segurados e perdas latentes em títulos do Tesouro — mas hesitavam em agir sem certeza absoluta do passo correto.

Outro ponto crítico: faltava clareza sobre quem tinha autoridade para decidir. Essa indefinição atrasou respostas que poderiam ter contido a corrida bancária. O relatório também derruba a tese de que redes sociais aceleraram os saques, versão defendida pela gestão anterior do banco central.

Por que isso muda o jogo para a regulação bancária

A vice-presidente Michelle Bowman, nomeada por Trump para a supervisão, afirmou que o objetivo não é culpar indivíduos, mas justificar uma “reforma significativa”. Na prática, o Fed já anunciou que examinadores passarão a entregar relatórios mensais regionais focados estritamente na saúde financeira dos bancos.

A mudança de foco é nítida: menos ênfase em processos burocráticos, tecnologia e conformidade; mais atenção em riscos de liquidez, juros e capital. Para o empresariado, isso sinaliza uma fiscalização mais ágil, porém potencialmente menos tolerante com balanços frágeis.

  • Segunda maior falência da história dos EUA, atrás apenas do Washington Mutual (2008).
  • Efeito cascata: derrubou Signature Bank e First Republic nas semanas seguintes.
  • Contenção: reguladores garantiram 100% dos depósitos, inclusive os não segurados, para estancar o pânico.

O flanco político: autonomia do Fed na mira

O ataque a Barr é a peça mais recente de uma estratégia ampla. Trump tentou remover a diretora Lisa Cook — barrado pela Suprema Corte — e abriu investigação criminal contra Jerome Powell, arquivada depois. O presidente chamou o atual chair de “imbecil” por recusar cortes agressivos de juros.

Agora, com Kevin Warsh cotado para assumir a presidência do Fed em 2026, o relatório da Starling funciona como munição política. Democratas, como a senadora Elizabeth Warren, classificam o movimento como “tentativa de reescrever a história” para pavimentar uma desregulamentação perigosa.

O que observar daqui para frente

A disputa não é apenas burocrática. A direção da supervisão bancária ditará o custo e a disponibilidade de crédito para empresas de todos os portes nos próximos trimestres. Se a flexibilização defendida por Bowman e pelo governo Trump avançar, bancos regionais podem ganhar fôlego para emprestar — mas o sistema ficará mais exposto a choques de liquidez.

Fique atento a três sinais: a votação das novas regras de capital (Basileia III endgame), a nomeação do substituto de Powell em 2026 e a reação dos mercados de títulos longos a qualquer sinal de interferência política na política monetária. A independência operacional do Fed, mais do que nunca, virou variável de risco no seu balanço.