Economia

O segredo das marcas de carro que estão dominando o skyline de Miami…

Arranha-céus de luxo com marcas automotivas no skyline de Miami ao pôr do sol
Torres residenciais assinadas por Porsche, Bentley e Aston Martin redefinem o horizonte de Miami.

Miami virou o laboratório global onde engenharia automotiva e arquitetura de ultra-alto padrão se fundem — e o resultado está redefinindo o conceito de “morar bem” para o público de altíssima renda. Não é mais apenas sobre localização ou metragem; a moeda de troca agora é a identidade da marca estampada na fachada. Mas será que o prêmio pago por esses endereços resiste à prova do tempo na revenda?

Quando a maçaneta vira caso de engenharia

Tudo começa no detalhe que ninguém vê: a porta de entrada. No projeto do primeiro Pagani Residences do mundo, em North Bay Village, o fundador Horacio Pagani questionou o mecanismo de abertura. Para o CEO da incorporadora, Mikael Hamaoui, era uma porta comum. Para o visionário italiano, era o “primeiro toque” do cliente com a marca.

A solução? Um sistema magnético invisível, sem maçanetas tradicionais. É essa obsessão pelo DNA da marca — e não apenas pelo logo — que justifica o prêmio de preço. A entrega está prevista para o fim de 2028.

O mapa do luxo sobre rodas na Flórida

Hoje, Miami concentra o maior volume de condomínios licenciados por montadoras nos EUA, ficando atrás apenas de Dubai no ranking global. São projetos que transformam a garagem em extensão da sala de estar. Veja os principais players atuais:

  • Porsche Design Tower (Sunny Isles): ícone desde 2016 com o “Dezervator”, elevador que sobe o carro até o apartamento.
  • Aston Martin Residences (Downtown): inaugurado em 2024, design naval e 391 unidades praticamente esgotadas na pré-entrega.
  • Bentley Residences (Sunny Isles): em construção, 62 andares, usa o mesmo sistema patenteado de elevadores da Porsche. 60% vendido desde 2022.
  • Mercedes-Benz Places (Brickell): lançamento para 2028, aposta em “mobility as a service”: carro com motorista e frota compartilhada inclusa, sem dor de cabeça com seguro ou manutenção.
  • Pagani Residences (North Bay Village): o mais novo entrant, foco em detalhes artesanais e exclusividade extrema.

Por que o comprador internacional abre a carteira

Segundo Liam Bailey, da Knight Frank, a marca funciona como um “selo de garantia” para quem não conhece construtoras locais, leis tributárias ou riscos de mercado. O comprador estrangeiro — responsável por US$ 4,4 bilhões em aquisições só no último ano, alta de 42% — enxerga na grife automotiva uma linguagem universal de status e qualidade.

Thomaï Serdari, da NYU Stern, resume: para esse público, a marca do carro comunica sucesso de forma imediata, dispensando explicações sobre o incorporador.

O prêmio numérico: vale a pena?

Os dados da Analytics Miami mostram a discrepância clara. Na Porsche Tower, o preço mediano das oito unidades vendidas no último ano girou em torno de US$ 4,25 milhões. Em edifícios de luxo “sem marca” na mesma Sunny Isles, a mediana foi de US$ 2,13 milhões. No mercado geral da região, cai para US$ 740 mil.

No Bentley, as unidades remanescentes de três quartos partem de US$ 5,8 milhões. A matemática fecha para o incorporador hoje, mas a incógnita permanece: como esses ativos se comportam no mercado secundário daqui a 10 ou 15 anos?

A origem da “tempestade perfeita”

Tudo começou em 2008 com Gil Dezer e as Trump Towers. Anos depois, em plena recessão, a Porsche bateu à porta. Sem crédito imobiliário disponível, a estratégica foi mirar o comprador “à prova de juros” — o apaixonado por carro que paga à vista. O elevador patenteado virou o diferencial inegociável. Celebridades como Messi e Alicia Keys validaram o conceito.

O que observar daqui para frente

O modelo de licenciamento transfere prestígio, mas a gestão do dia a dia segue com o incorporador. O teste real não é a velocidade de vendas no lançamento — todas estão quentes —, mas a liquidez na revenda e a capacidade de a marca automotiva manter relevância cultural por décadas. Se a transição para veículos elétricos e autônomos mudar a percepção de “luxo sobre rodas”, esses condomínios correm o risco de virar peças de museu caras demais para manter. Investidor atento monitora: taxa de absorção pós-entrega, diferença de preço no secundário vs. vizinhos sem marca e cláusulas de manutenção da identidade visual nos contratos de licenciamento.