O governo assinou o Decreto dos Fãs para frear cambistas e taxas abusivas, mas o comando da Ticketmaster Brasil garante: a operação segue intocada. A razão expõe a engrenagem financeira por trás de cada ingresso vendido — e aponta para uma aposta bilionária no mercado sertanejo.
Donovan Ferreti, CEO da operação brasileira, afirma que a empresa ajudou a escrever as novas regras. Para o executivo, a lei apenas padroniza o que a gigante já pratica. Mas, se a regra não muda o jogo, qual é a próxima jogada?
A anatomia da taxa que ninguém gosta de pagar
A polêmica central gira em torno da taxa de serviço (ou conveniência). Ferreti é direto: ela é a única receita da empresa. Diferente de concorrentes que embutem outras cobranças, o modelo da Ticketmaster concentra tudo num único percentual.
O detalhe que passa despercebido: nas vendas de bilheteria física, a receita extra é zero. Custos com pessoal, equipamentos, logística e controle de acesso no dia do evento saem do bolso da tiqueteira. A estrutura foi desenhada para que a despesa acompanhe a demanda — quanto maior a operação, maior o custo absorvido.
O que o decreto realmente altera na prática
Segundo o CEO, quase nada. A legislação proíbe cobranças adicionais que a Ticketmaster nunca fez e exige boas práticas de segurança que já eram padrão interno. Ferreti resume: o decreto serve para igualar o régua do mercado primário, forçando jogadores menores a subir o nível de compliance e cibersegurança.
O efeito prático é a padronização. Quem operava na informalidade ou com modelos de taxação obscuros terá que se adequar. Para o líder de mercado, isso reduz a assimetria competitiva.
A guerra contra cambistas: US$ 15 milhões por ano e um vazio legal
O ponto nevrálgico continua sendo o mercado secundário ilegal. Ferreti admite a frustração dos fãs, mas aponta o dedo para a legislação penal. Investem-se US$ 15 milhões anuais (cerca de R$ 77,2 milhões) em sistemas antifraude, mas a tecnologia tem limite: não há como certificar a autenticidade de um ingresso anunciado no Instagram ou em sites de revenda não oficiais.
- Investimento anual em cibersegurança: US$ 15 milhões.
- Gargalo: ausência de tipificação penal eficaz para cambismo digital.
- Risco: ingressos comprados fora do canal oficial não têm garantia de validade.
Sem punição severa para o revendedor ilegal, a enxugada de gelo continua. A plataforma bloqueia bots e monitora padrões suspeitos, mas a raiz do problema é jurídica, não técnica.
Precificação dinâmica, pressão política e o “oportunismo eleitoral”
Questionado sobre o dynamic pricing (preços que flutuam em tempo real, prática comum nos EUA), Ferreti descarta a adoção no Brasil por enquanto. “Não pensamos nisso hoje”, cravou.
Sobre pressões regulatórias, o tom muda. O executivo classifica parte das críticas como “falta de conhecimento do segmento” ou “oportunismo em período eleitoral, buscando um público diferente”. A leitura interna é que o modelo de negócio é incompreendido — ou usado como palanque.
A aposta no sertanejo e a compra do BaladApp
Se o decreto não mexe no core, a estratégia de crescimento mexe. A aquisição do BaladApp, plataforma de Gusttavo Lima, escancara a prioridade: o universo sertanejo. O segmento pulsa em praticamente todos os estados, com volume massivo de eventos de menor porte — exatamente onde a Ticketmaster tinha capilaridade reduzida.
A operação do BaladApp estava concentrada em Goiânia e Brasília. A compra resolve dois problemas de uma vez: entrada no gênero que mais vende ingressos no país e expansão geográfica imediata no Centro-Oeste.
O próximo fluxo de receita: comida e bebida na palma da mão
O movimento mais silencioso — e potencialmente mais lucrativo — não envolve ingressos. A empresa testa há meses a integração com o Izi, seu sistema próprio de alimentos e bebidas. A ideia: o fã pede a cerveja e o hambúrguer pelo app do ingresso, retira no ponto expresso ou recebe na cadeira.
Ferreti confirma que a novidade entra em operação ativa “em breve”. Isso transforma a tiqueteira em plataforma de consumo in-venue, abrindo uma receita recorrente por evento que independe da taxa de conveniência.
O que observar daqui para frente
Três vetores definem o próximo trimestre da empresa no Brasil: a escalada do sistema Izi em casas de show e estádios, a integração real da base do BaladApp ao motor global da Live Nation e a definição (ou não) de um marco legal que puna o cambismo digital com rigidez. Se a lei não andar, o investimento de R$ 77 milhões em segurança segue sendo custo de manutenção, não solução. Enquanto isso, o sertanejo paga a conta da expansão.
