A renda média dos brasileiros de 18 a 29 anos atingiu R$ 2.593 no segundo trimestre de 2026, o segundo maior patamar da série histórica. O número parece uma vitória, mas esconde uma disparidade que trava a ascensão dessa geração: o rendimento ainda é 37,8% menor que o dos profissionais de 30 a 59 anos.
É o que revela estudo do FGV Ibre baseado na Pnad Contínua do IBGE. A melhora real existe, impulsionada por um mercado mais aquecido e por um salto educacional inédito. No entanto, a distância para os mais velhos não apenas persiste, como expõe fragilidades que a tecnologia ameaça ampliar.
O freio que evitou o pior
Sem o avanço da escolaridade, o cenário seria significativamente mais duro. Pesquisadores estimam que, mantido o perfil educacional de 2012, a renda média desse grupo seria de R$ 2.381 — cerca de 8% abaixo do valor real.
Em 14 anos, a fatia de jovens com ensino superior completo saltou de 11% para 16,8%. Paralelamente, aqueles sem instrução ou com fundamental incompleto caíram de 17,6% para 5,6%. A qualificação funcionou como um colchão de amortecimento.
“A educação impediu que a situação dos jovens piorasse frente aos outros grupos”, resume o pesquisador Paulo Peruchetti. Mas o alerta está dado: com a inteligência artificial automatizando tarefas de entrada, o diploma sozinho pode não bastar.
Desemprego cai, informalidade gruda
A taxa de desocupação entre os 18 e 29 anos fechou o trimestre em 9,2%, a segunda menor da história. A mínima de 8,8% ocorreu no fim de 2025. Ainda assim, o índice é mais que o dobro do registrado entre os 30 e 59 anos (3,8%) e supera a média nacional (5,4%).
Outro ponto de atenção é a informalidade. Ela atinge 37,4% dos ocupados nessa faixa etária — idêntica à média do país, mas superior aos 34,8% vistos nos adultos maduros. A combinação de “bicos” e pouca experiência puxa o salário para baixo.
Onde a juventude trabalha hoje
Três atividades concentram a mão de obra jovem, segundo o levantamento. São postos de alta rotatividade e produtividade relativamente baixa:
- Balconistas e vendedores de lojas: 1,7 milhão (6,6% do total);
- Escriturários gerais: 1,5 milhão (6,1%);
- Trabalhadores elementares da construção: 617,8 mil (2,5%).
Para o economista Ely José de Mattos (PUC-RS), a indústria — setor que paga melhor e exige formação — absorve menos jovens justamente pelo custo de treinamento e pela rotatividade elevada. “No Brasil, a transição escola-trabalho é muito mais traumática que em países desenvolvidos”, afirma.
IA já elimina o degrau de entrada
Um estudo paralelo do FGV Ibre, assinado por Daniel Duque, mostrou que a inteligência artificial já reduz vagas de nível júnior no Brasil. São exatamente os postos tradicionalmente ocupados por quem está começando.
Na tecnologia da informação, por exemplo, funções técnicas de base estão sendo automatizadas. “O sênior um dia foi júnior. Se a IA vira o júnior, de onde virá o próximo sênior?”, questiona Mattos. Peruchetti complementa: quem não conseguir se adaptar às novas ferramentas sentirá o abismo aumentar.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão se a geração atual consegue fechar a lacuna salarial ou se estagna: a velocidade da formalização nos setores de serviços, a capacidade do sistema educacional de ensinar habilidades que a IA não replica (pensamento crítico, gestão complexa) e a disposição da indústria em investir em programas de trainee de longo prazo. O diploma abriu a porta; a adaptabilidade determinará se ela permanecerá aberta.
