Economia

PcDs na liderança: só 1,5% das vagas — e o salário médio pedido está abaixo do mínimo

Gráfico mostra disparidade: apenas 1,5% vagas liderança PcD versus 31% candidaturas espontâneas
Estudo revela abismo entre vagas de liderança para PcDs (1,5%) e interesse dos profissionais (31%).

Um levantamento inédito revela que apenas 1,5% das vagas exclusivas para pessoas com deficiência contemplam cargos técnicos ou gerenciais. O dado expõe um abismo entre a ambição dos profissionais — 31% das candidaturas espontâneas miram posições de liderança — e a estrutura real de contratação das empresas.

Onde estão (e onde não estão) as oportunidades

A startup Egalite analisou 116 mil perfis cadastrados e mais de 19 mil vagas ativas em seu portal Inclui PcD. O retrato é nítido: 98,5% dos postos ofertados são operacionais. Metade das organizações da base já abre todas as posições — da entrada à diretoria — para PcDs, superando a cota legal. Ainda assim, a pirâmide continua invertida.

“Não existem cargos de liderança na mesma proporção que cargos de entrada”, resume Djalma Scartezini, fundador da Egalite e CEO da Rede Empresarial de Inclusão Social. Ele atribui a distorção ao peso do varejo, setor que concentra a base da pirâmide ocupacional e, por consequência, o volume de vagas.

O recuo do home office e o impacto invisível

Outro vetor de exclusão acelerou nos últimos dois anos. Vagas remotas ou híbridas caíram de 28,4% (2024) para 0,8% (2026) no portal. Para quem tem deficiência física, o modelo remoto elimina barreiras de mobilidade urbana e transporte público inacessível. Para profissionais neurodivergentes, o ambiente doméstico funciona como regulador sensorial: controle de estímulos, adaptação do espaço e redução da sobrecarga social.

Guilherme Braga, CEO da Egalite, destaca que a volta presencial em massa não atinge todos da mesma forma — e o custo de oportunidade recai desproporcionalmente sobre esse grupo.

Expectativa salarial: o viés que antecede a contratação

A pretensão salarial mediana declarada por candidatos PcD é de R$ 1.450 — abaixo do salário mínimo vigente (R$ 1.621). O fenômeno não reflete falta de qualificação. Scartezini aponta que muitas vagas já nascem com remuneração reduzida frente aos parâmetros de mercado, alimentando um ciclo em que o próprio profissional internaliza a desvalorização.

  • 1,5% das vagas para PcDs são de liderança/técnicas
  • 31% das candidaturas espontâneas visam esses cargos
  • R$ 1.450 — pretensão salarial mediana (vs. R$ 1.621 do mínimo)
  • 0,8% das vagas atuais são remotas/híbridas (era 28,4% em 2024)

O que observar nos próximos trimestres

A feira Inclui PcD mais recente ofertou 19 mil vagas, das quais quase 4 mil eram para especialistas, coordenadores e primeiros degraus de gestão. O sinal é de movimento — lento, mas mensurável. Para lideranças de RH e estratégia, a métrica a monitorar não é o preenchimento de cotas, e sim a taxa de conversão de PcDs em cargos de decisão e a equiparação salarial na origem da vaga. O gargalo não é a falta de interesse. É a arquitetura das oportunidades.